Edição Número 0717 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 04 de Setembro de 2008.
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Romantismo

Eliezer Sylvestre
Membro correspondente do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos

Outro dia, estava conversando com uma de minhas amigas solteiras. A jovem é madura e rompeu há alguns meses um relacionamento de anos do tipo "cama, mesa e banho", ou seja, os modernos namoros onde você faz tudo o que uma mulher casada faz, sem estar casada. Após enfrentar o vazio que o término de uma experiência dessas traz, como a fênix ela começa a renascer das cinzas para um novo amor bem diferente, diga-se de passagem. Ele vem se desenvolvendo com uma respeitosa distância, que mais aproxima do que afasta. Ela está maravilhada, pois acreditava já ter experimentado tudo o que um relacionamento a dois pudesse oferecer. Como se o sexo fosse a única coisa gratificante entre duas pessoas que escolhem permanecer juntas para a vida toda.
Foi então que comecei a lhe contar sobre a forma como os relacionamentos aconteciam quando eu era menino. Flertes que duravam meses apenas com troca de olhares, e a hesitação do rapaz em pegar na mão da moça pela primeira vez. Momentos inesquecíveis e românticos; envolvidos numa aura de paixão e ansiedade. O primeiro beijo demorava muito a acontecer, e não era porque as moças não tinham desejo, mas porque queriam se assegurar de que o rapaz seria merecedor de sua afeição e saberia tratá-la com respeito e consideração. Tudo tinha um ritmo diferente, mais lento. Havia tempo para o conhecimento mútuo do caráter, antes do conhecimento mútuo dos corpos. Existia mais inspiração e menos transpiração, com certeza.
Os rapazes pensavam dezenas de vezes antes de dizer alguma coisa que pudesse ofender a moça, e mais uma dezena de vezes antes de fazer alguma coisa, com medo de perder a chance de continuar o namoro. Tudo isso conferia um clima romântico ao relacionamento, e possibilitava um maior tempo, aonde os afetos vinham desabrochar e o bem-querer se instaurar na relação. Os rapazes defendiam suas meninas e procuravam poupá-las de aborrecimentos. Não dá pra acreditar que, hoje em dia, muitas moças apanhem de seus pares ainda nessa época de conhecimento.
Os recadinhos, bilhetes e poemas de amor eram os responsáveis por um sem número de devaneios sentimentais; enchiam as pessoas de ilusões e apimentavam o namoro. Não havia necessidade de surpreender o par com roupas íntimas de cores berrantes, nem bebericar conjuntamente, ou usar maconha / ecstasy para aumentar a excitação. Tudo era muito romântico. Os olhares diziam mais do que as palavras e as pessoas se sentiam mais seguras. Pequenos mimos faziam a alegria do jovem casal que se presenteava mutuamente.
Sim, antigamente, o grau de tolerância nos relacionamentos era muito maior do que hoje. Quando um par se juntava, começava a pensar como casal, não existia essa permanente busca pela garantia da individualidade, uma característica dos tempos modernos. Agora há um grau de exigência muito grande nas parcerias amorosas. As pessoas se juntam rapidamente, não ocorrem mais aque-les longos namoros monitorados pelos pais e parentes na sala da casa da moça, mas também o desligamento é muitíssimo acelerado.
Fico feliz que minha amiga possa estar vivenciando um pouco daquilo que muitos vivenciaram no passado. Seu contentamento genuíno, mesmo após haver experimentado um relacionamento praticamente marital. Isso mostra que a apelação não é necessária, e podemos seguir sem a necessidade de colocar o "carro na frente dos bois". Quiçá todo jovem pudesse refletir sobre este artigo antes de se alienar com o Big Brother Brasil...
"Não escolhemos aqueles a quem amamos. Eles brotam. Eles se impõem a nós" (Rose M. Muraro).

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