Edição Número 0717 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 04 de Setembro de 2008.
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Geléia geral

Valério Mesquita
Escritor

01) A política é uma arte difícil, penosa. Principalmente para aqueles que exercem o ofício como um apostolado através do atendimento corpo a corpo, cotidianamente, com o eleitor. Essa história, recusei-me contá-la por escrúpulos. Entendi que, como protagonista, fui grosseiro. Mas, o político é também um ser humano que precisa ser entendido notadamente nas circunstâncias. Vamos ao fato. A campanha política de 1990, quando disputei a reeleição, foi dificílima. O fluxo diário a minha casa em Macaíba era de cinqüenta a setenta pessoas por dia, a pedir o possível e o impossível. Ansioso, tenso, alimentava-me de tranqüilizantes. Mas, para piorar o meu calvário, diariamente, aparecia Joana Bofão, gorda, barriga arriada, bunda de tábua de engomar, despenteada, aquela eleitora chata, pedinte profissional. Certo dia, numa manhã clara, sempre véspera de todas as angústias, sufocado por pessoas e pedidos, novamente pela vigésima oitava vez, aparece Joana ao portão da casa que dava para um comprido alpendre e pergunta, imperativa: "O que é que estão dando hoje?". A indagação me soou provocante, intimidativa. Respondi-lhe, raivoso, sem pensar: "O "quincas", Joana, O "quincas!!". Ela se foi sem entender bulhufas.
02) Antenor Inácio da Rocha ex-vereador de Macaíba, já desfilou em Poucas e Boas. O seu apelido de guerra é "Agenor da Tripa". Num de nossos encontros, em Macaíba, o velho guerreiro me parabeniza pelo aniversário e soleniza numa frase, ao seu estilo, o compromisso político, sui generis: "Doutor Valério, para o ano que vem pode contar com a minha mulher de perna aberta para trabalhar pra o senhor". "Agenor", disse-lhe, "Pelo amor de Deus não nos comprometa tanto".
03) O cenário dessa história é a Prefeitura de Macaíba. Certa feita, o chefe de compras da prefeitura chegou a secretaria de finanças com uma bola de futebol oficial, legítima. Aborrecido, dizia aos circunstantes: "O que diabo eu faço com isso?". Foi aí que o espirituoso José Almeida, ironicamente, explicou: "Fulano pediu uma bola a um fornecedor e esse, sem entender, trouxe-lhe uma bola de verdade". A turma da fofoca, dizem, passaram a instruir o funcionário para, doravante ser mais explícito: "Use as palavras da moda: "erva", "tutu", "aço", "pila", etc".
04) O ex-vereador macaibense Manoel Ferreira de Lima, protagonista de alguns causos já registrados, volta a cena com mais dois inéditos narrados pelo Juiz de Direito Cícero Martins de Macêdo Filho. A Câmara Municipal de Macaíba discutia a concessão do título de cidadania ao brigadeiro Everaldo Breves, Comandante do Catre. A oposição questionava a sua outorga argumentando que o militar não ostentava nenhuma folha de serviços a Macaíba. Eram os anos setenta evidenciados pelo amplo noticiário da corrida sideral quando a mídia explorava a iminente queda do imenso laboratório espacial Sky-Lab, no nordeste do Brasil, possivelmente no Rio Grande do Norte e que terminou despencando na Austrália. O vereador Manoel Ferreira, presidente da Câmara, saiu-se com essa pérola de argumentação: "Devemos todos a gratidão ao brigadeiro pois foi ele o responsável pela queda do laboratório espacial longe daqui, na Austrália". E o título foi aprovado.

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