O sorriso de Boris Karloff
José Carlos L. Poroca Um brasileiro que está aprendendo a sorrir Boris Karloff - para quem não sabe - foi um ator inglês que ficou famoso pelos filmes de terror que interpretou e, em especial, pela sua atuação em "Frankenstein", de 1931. A partir de então, seu nome sempre esteve associado a personagens que assustavam, que metiam medo. Interpretou vampiros, múmias, mortos que ressuscitam, 'monstros', gângsters e cientistas 'loucos'. O marcante, na figura, eram os seus olhos expressivos, que misturavam um pouco de incomum, associado a um provável olhar do lobo da história de 'Chapeuzinho Vermelho', ao responder, com baba escorrendo pela mandíbula, à pergunta da mocinha: "são para te comer...!". Boris assustou muita gente nos mais de 150 filmes que participou, ao lado de outros 'feras' na arte de fazer medo: Cristopher Lee, Vincent Price, Peter Lorre, John Carradine, Basil Rathbone e outros tantos.
Não gosto de filmes que recebem a classificação de "terror", porque, salvo raríssimas exceções, são feitos exclusivamente com o objetivo de extrair gritos, palpitações, mãos nos braços das poltronas (ou de quem está mais próximo), etc. Há quem diga que a uma das formas de tentar se aproximar de uma garota, é levá-la para ver um desses filmes que exigem braços amigos, um ombro para esconder o susto, coisas assim. Arte, que é bom, deixa a desejar. (E quem está pensando em arte?). Se me pedirem uma lista dos dez melhores filmes de 'terror' que já vi, não conseguiria relacionar três, talvez quatro. Em síntese, com a vida que se leva e com o que a gente vê no dia-a-dia, não sobra espaço para histórias de 'frankesteins', de múmias que acordaram ou de vampiros que passam o dia dormindo e só acordam à noite para ir atrás de sangue de moças de pescoços longos e bonitos.
Boris já se foi (em 1962), mas deixou 'marcas'. Em menos de três mese ele apareceu em meus sonhos mais de uma vez. Confesso que fiquei assustado, não pelos olhos, mas pelo sorriso do intérpetre de Frankenstein. O tal sorriso ficou na mente, levando a me perguntar: "por que não o sorriso de Naomi Watts, ou os belos dentes de Scarlett Johansson?". Também não me incomodaria com o sorriso de Greta Garbo, um dos rostos mais bonitos e enigmáticos mostrados pela sétima arte. Tenho dúvidas se a minha 'cabrita' ficaria satisfeita se contasse para ela que os sorrisos de Naomi, da Scarlett e de Greta estavam presentes nos meus sonhos. Não, pensando melhor, acho que entenderia, mesmo porquê ela sabe que não abro mão da sua presença, seja aonde for: em sonhos, acordado, sentado, deitado, solto ou amarrado. Amarrado, aliás, é como sempre estive, por ela, a 'cabrita'.
Para evitar problemas e outros tipos de especulações, confesso que não causaria qualquer incômodo sonhar com outras dentaduras famosas, como a de Al Johnson, um branco pintado de preto que tinha bons dentes e um vozeirão sem igual. Participou do primeiro filme sonoro ("O Cantor de Jazz"). Também não esquentaria a cuca se apareceressem em sonhos risos e sorrisos daquele que não abria uma sorrriso quando estava em cena, o Buster Keaton. Ficaria satisfeito porque teria conseguido fazer o que outros tentaram e não conseguiram.
Vou mais longe. Ficaria tranqüilo se aparecesse o personagem "Coringa", o inimigo número um de Batman. Faria uma associação pela admiração que tenho pelas histórias em quadrinhos e, claro, pelo personagem, que vive criando poucas e boas para infernizar a vida do herói que mora em Gotham City. Não causaria incômodo se aparecesse em qualquer cena Gwynplaine, o personagem de Victor Hugo, desfigurado quando criança e que passa a ser atração de um circo, em função do perpétuo sorriso forçado. Se analisarmos melhor, podemos até dizer que o título do livro podia ser outro ('o homem que não ri'), pela crueza e tristeza que apresenta.
Volto ao Boris. O que me deixou mais encucado é que via o Boris (pelos olhos), sabia que era ele, mas, ao mesmo tempo, não era o Boris. O Boris do sonho (ou pesadelo) estava de barba e, pelo que sei, o ator nunca se apresentou com uma. O mais grave: não era o sorriso de Boris, era o de um brasileiro, com barba. Pior: ria de mim e eu não sabia de quê. Eu choramingava. Imaginava ter que conviver com 'Boris' até 2010, 2011, 2012, 2013, 2014. Tudo indica que o caso o caso é grave e exige acompanhamento. Preciso procurar um terapeuta, urgentemente.
