O limbo da Internet
Nísia Maria Pedagoga Nasceu de um rompante de inspiração magnífica. Nunca havia sentido um êxtase tão profundo diante da folha branca exibida através da página gentilmente cedida pelo site de publicações literárias. Os dedos deslizavam sobre o teclado de forma graciosa obumbrando a catatônica digitação de cata-milhos. Sucesso total. Os versos daquele soneto mavioso, sensível nasciam um a um numa cadência rítmica jamais alcançada. Ao lado a televisão transmitia a final portentosa da "Taça Libertadores da América". O jogo tornava-se a cada minuto mais e mais emocionante.
Indagava-me o porquê do interesse. Como boa flamenguista deveria me ser indiferente. Cheguei a admitir fazer parte da "Liga dos Urubus" como aliada da equipe equatoriana. Mas, o coração teimava em acelerar a cada ataque da equipe tricolor, afinal de contas ela estava envergando não apenas suas cores (adversárias da tradicional raça rubro-negra) incorporava o verde amarelo, azul e verde da nossa bandeira. Era o coração brasileiro que pulsava em ritmo alucinado.
Acompanhando o afã do campeonato que se desenrolava o soneto continuava seu processo de parto. Era um nascimento regado a um verdadeiro espetáculo pirotécnico de idéias. Temática envolvente. As palavras fluíam com vida própria dando forma ao primeiro quarteto. Do lado, "bola na rede," o primeiro gol da partida dava à LDU um antegozar de um resultado favorável. Mas, dizem que brasileiro não desiste nunca. Foi então o fluminense para o domínio de campo e chega ao heróico 3 X 1 no placar.
Enquanto isso já se encorpava o soneto com suas duas primeiras estrofes exuberantes, arrumadas concluídas. Uma perfeição milimétrica. Cada última letra ou ponto estava ajustado exatamente abaixo do outro. Fascinante o efeito sem que houvesse nenhum esforço mental significativo que impusesse à força tal conquista. Era espontâneo, natural, virgem. Voltava-me ao poema sentindo o nervosismo da partida que se desenrolava; assistia à partida sentindo o estrebuchar do poema em minhas entranhas.
A prorrogação, apesar de tudo, trouxe um momento de quietude ao saber que extinguiram das decisões a morte súbita (liguei para meu filho que assistia a partida com primos e amigos na AABB para confirmar. É os filhos crescem e a gente vê o futebol sozinhos). Era apenas uma partida mais longa. Essa falsa calmaria sobre a decisão que se desenrolava no maquiado orgulho dos brasileiros, o palco de grandes decisões, o estádio do Maraca, o Maracanã, o desconhecido Estádio Mário Filho. Deveria até ser motivo de uma enquete ao vivo nas ruas do Brasil, igual aquelas que procuram saber quantos brasileiros sabem cantar o Hino Nacional, perguntando qual o nome de "batismo do Maracanã". Estarei enganada? Qual percentual você arriscaria de palpite que saberia o verdadeiro nome? Sei não, acredito que o monumento nacional, o gramado das grandes decisões, o palco da Copa do Mundo de 1950, já incorporou o Maracanã como legítimo título de apropriação arrolando a febre aos demais estádios brasileiros: Castelão, Machadão, entre outros.
Nossa! Lembrar agora da copa de 50 seria um mau presságio? Amargamos uma derrota de 2 x 1 contra a equipe latina do Uruguai quando precisávamos de um mísero empate sustentado até os últimos minutos da grande final. Foi o nosso símbolo do futebol nacional enxovalhado como maracanaço pelos adversários. Não, não, hoje seria diferente. Os brasileiros empatavam em 5 x 5 no tempo regulamentar nas duas partidas. Revidavam o mesmo saldo de gols. Enquanto isso estava ali diante de mim a obra-prima. Os catorze versos estavam prontos, o soneto estava terminado. Faltava somente um último olhar na pontuação e zás, com um clique e estaria publicado no site.
A decisão foi levada à cobrança das penalidades máximas. Tudo igual entre as duas equipes sul-americanas. Os jogadores se preparavam para as cobranças, os goleiros em seus rituais de concentração absoluta (seria possível em meio ao ulular das torcidas, cerca de 80 mil vozes excitadas, nervosas, tensas?). Alguém lembrou do fato de que o time do Equador levaria desvantagem frente à escolha da baliza mais neutra em termos de torcedores, ambas, o Maracanã em peso, vestia-se com as cores do tricolor. Ninguém lhe deu ouvidos, o juiz fez a escolha, a sorte estava lançada. Os preparadores físicos tentavam reduzir a pressão sofrida pelos músculos esgotados pelos cento e vinte minutos de bola corrida. A revisão ortográfica chegava ao fim. Precisava dar o clique, mas o fluminense perde a sua primeira cobrança contra a marcação positiva do LDU. O clique poderia esperar.
LDU perde uma oportunidade, Fernando Henrique já se sente herói do título. Novamente o fluminense perde, LDU converte. Ambos marcam na terceira tentativa, mas fatidicamente o maracanã pára. O silêncio é absoluto. O atacante avança para a bola (a verdadeira heroína da "coisa" toda, suportando estoicamente os chutes, pontapés, dribles num revezamento com outras tantas quando saem pelas linhas de demarcação, dando-lhes um alívio temporário - sossego mesmo é ser agarrada pelas mãos enormes dos goleiros revestidas por luvas de Látex, Algodão e Poliuretano - uma carícia em meio aos safanões a que se submetem em uma partida). Não dá para acreditar, o goleiro adversário defende a invasão da "pelota" em seu reinado, é a consagração do título para os visitantes. Atônitos os torcedores da grande nação tricolor vê o título fugir-lhe da história de seu clube, a taça escoa das mãos e as lágrimas tingidas de verde, vermelho e branco desfilavam nos rostos pintados; as camisas antes agitadas num frêmito entusiástico jaziam sobre os ombros caídos.
É, lembrei que a dor não era minha, afinal sou flamenguista, mas o peso daquela derrota depois de uma luta com galhardia, vigor e raça havia me contaminado, estava triste, coração pesado, solidária aos irmãos de território. Restava-me o soneto, voltei-me pra ele, só precisava de um clique para editá-lo no site. Dou o clique, a página havia expirado, precisava fazer o login e entrar com a senha novamente para que a ação fosse executada. Muito simples se não fosse um dedinho arteiro de dois aninhos com a rapidez de um chute na "veia" chegar primeiro ao Esc e, junto ao título do fluminense, foi o meu soneto para o limbo.
