Temos algo em comum
José Carlos L. Poroca Um passarinho que não canta e nem voa Nós, mortais, nos identificamos com algo ou com alguém. Curto e grosso. A afirmação não traz nada de novo e, lançada desta forma, diz absolutamente nada, considerando que a história já nos mostrou que casamentos, sindicatos e partidos - só para citar estes - surgiram porque pares e grupos tinham coisas em comum.
As identificações entre os indivíduos permitiram a perpetuação ou a destruição da espécie, a criação de clubes que têm sócios e milhões de simpatizantes pelo mundo inteiro e - não posso esquecer - a preferência, às vezes sem causa ou origem, por combinações de cores, como a maravilhosa junção do preto com o vermelho.
A gente sabe que certas preferências extrapolam limites daquilo que chamamos de racionalidade, como a de pessoas que, presumo, devem achar engraçado ou devem sentir algum prazer ao atear fogos em moradores de ruas. Ou o irracional ato de jogar bombas sobre regiões que abrigam pessoas de todas as idades: velhas, moças, crianças, recém-nascidos. Também foge o limite do meu entendimento saber que humanos (humanos?) saem para matança de animais irracionais nos seus habitats, pelo prazer de caçar ou de vender a carne, os chifres ou a pele da caça. Esse feio hábito ocorre na América do Sul, na do Norte, na África, Austrália e - passem! - na Inglaterra, considerado o país mais civilizado do Planeta.
Conhecendo esses maus hábitos, perguntei ao meu amigo Walfrido o que pensam os do reino animal sobre o comportamento dos humanos diante de tantos descaminhos. Ele, que não tem papas na língua (nem língua tem), é categórico: - "são uns animais!". Posso achar engraçado a afirmação, mas não posso deixar de reconhecer que os papéis foram invertidos, quando se pensava que os atos de barbárie do passado sumiriam com o surgimento do progresso; o otimismo pós-guerra induziu as pessoas a pensarem que, a partir de então, tudo seria diferente e que os humanos seriam da paz e que viveriam em função do bem-estar comum.
O mesmo Walfrido veio com uma história aparentemente absurda. Os dados e detalhes foram tantos que acabei me convencendo que a coisa era verídica, pra valer. Informou que o pagar para ter sexo deixou de ser exclusividade dos humanos. Em Cingapura, um estudo apontou que macacos machos pagam para ter relações sexuais com as macacas. Não pagam em dinheiro e nem com objetos. Trocam o sexo pelo afagar e pelo limpar os pelos das fêmeas. Os macacos são tão parecidos com os humanos que, lá, no mesmo local, também funciona a lei da oferta e da demanda. Explico: quanto maior o número de fêmeas, menor o tempo em minutos do trabalho do macaco macho. E ainda dizem que esses animais não são nossos antepassados.
As semelhanças não param por aí. Observem com atenção o comportamento dos animais à nossa volta, em especial os cães, as cabritas e os gatos. Apesar de não simpatizar com os gatos (mamíferos domésticos, da família dos felídeos), vejam como são civilizados. Tomam banho todos os dias, fazem cocô num único local e só tiram a comida de outros se os seus donos não abastecem a sua 'cumbuca'. De minha parte, tenho uma identificação muita próxima com os agapornis. Gostamos de música (eles gostam de cantar, eu gosto de ouvir), os machos adoram uma fêmea (ainda não pude aferir se a recíproca é verdadeira), nos estressamos quando algo interfere no nosso ambiente, gostamos do escurinho para dormir e achamos que sol, além de ser o relógio natural automático ("acorda!"), é sinônimo de vida, de saúde, é o instrumento que nos diz e mostra que a natureza está ali, do nosso lado, para nos ajudar a viver e enfrentar os contratempos que surgem aqui e ali.
Walfrido, mais prático, não deixa passar em branco. Atravessou o assunto e, num meio-discurso, 'falou' que estava mudando de ares por tempo indeterminado. Insinuou que não vai sair do Nordeste. E concluiu: - "pra quem fica, tchau.".
Nota: Walfrido é um penífero tagarela que sempre aparece na minha janela, sempre ao amanhecer; fala em português do Brasil e canta em vários idiomas.
