Lula compara-se a Jesus e diz que leva no 1º turno
Josias de SousaJornalistaDiscursando para cerca de 4.000 pessoas, o presidente afirmou que "dia 1º de outubro é dia da onça beber água". E disse estar sequioso: "Essa oncinha está com sede." Desdenhou das denúncias que assediam o PT e o Planalto: "Podem fazer denúncia. Façam o que quiser. Não tem problema. Nós vamos ganhar com a cara limpa". Neste ponto, meteu Jesus no meio da contenda. Só para realçar que o erro de discípulos não desmerece a obra do mestre. "A gente poderia pegar a história e iríamos perceber que, numa mesa de 12, um traiu Jesus Cristo". Noves fora Pedro, que o negou três vezes, Jesus, de fato, só teve um traidor. Mas a comparação de Lula soa, digamos, imprópria.
Primeiro porque o filho de Deus, onipresente como o Pai, a tudo via e de tudo sabia. Segundo porque, na santa ceia petista, a quantidade de Judas é bem maior. Aos 40 da denúncia do procurador Antonio Fernando de Souza (entre eles vários grão-petistas e ex-ministros) veio somar-se a meia dúzia de compradores de dossiê. Terceiro porque a traição dos dias que correm vem custando bem mais do que trinta dinheiros. Lula faz bem em esgrimir otimismo. É esse o papel de um candidato quando fala aos seus eleitores. De resto, apesar dos pesares, ele vai conseguindo, por ora, caminhar sobre o mar de denúncias com desenvoltura divina. Mas o favoritismo de ontem, vigoroso e acachapante, já não é tão vistoso. E a vitória, se vier, pode converter-se num triunfo de Pirro. O eventual segundo mandato avizinha-se como uma quadra de questionamentos e turbulências.
Um cenário bem mais deteriorado do que aquele verificado em 1º de janeiro de 2003, quando Lula tomou posse falando de coisas como "reformas", "energia ético-política", "pacote social" e "combate à corrupção". Em outro comício, na Paraíba, o principal adversário de Lula, Geraldo Alckmin, também discursou em timbre otimista. "A campanha tem crescido em todo o país, vamos para o segundo turno", afirmou. Alckmin cobrou pressa na apuração do "dossiêgate": "Faz uma semana (que petistas foram presos com R$ 1,7 milhão em São Paulo) que as denúncias sobre a compra e venda de um dossiê apareceram e nada foi esclarecido até agora.
De onde veio o dinheiro? É óbvio que as pessoas presas não tinham esse dinheiro. Como o dólar entrou no Brasil?". O presidenciável tucano tem razão em suas cobranças. Há muito por investigar. Para o eleitor, seria extraordinário se as interrogações virassem um imenso ponto final antes de 1º de outubro. Inclusive a imensa interrogação que ronda um personagem que, a propósito, também tem nome bíblico: um tal de Abel, cuja proximidade com o tucanato a Polícia Federal e o Ministério Público esquadrinham com uma disposição digna de Caim.
