Le Métèque
07/06/2008 15h57
José Carlos L. Poroca
Advogado, executivo do segmento shopping centers
Georges Moustaquis é (ou era - não sei se ainda vive) um compositor/cantor grego-francês que fez muito sucesso nas décadas de 60/70. No Brasil, sua música "José" emplacou duas vezes: primeiro, com Nara Leão, e, mais na frente, com Rita Lee. "José' não foi o seu maior sucesso; foi "Le Métèque" (o estrangeiro). A música correu mundo. A sua letra pode ter vários significados e se encaixa em várias situações: a de um gringo sentindo (amando ou odiando) a terra estranha, o desabafo do "judeu errante" em terras outras, uma canção de amor, a chegada, a despedida, etc. E também pode ser absorvida como um memorial sonoro do estrangeiro admitindo aceitar a nova terra como sua, até por falta de opções.
O "Météque" puxou da memória "O Estrangeiro", livro de A. Camus, um dos grandes questionadores dos valores morais da sociedade - como foram Dostoiévski e Kafka. O livro assusta (como em "O Processo", de FK), pela crueza como se demonstra a minúscula distância entre a ficção e a realidade. Por obra do acaso ou por um mero detalhe, qualquer um pode sair de um lado para o outro em questão de segundos. Qualquer ser humano pode entrar numa trilha sem fim ou sem volta, com um só caminho: seguir em frente, contando com elementos como sorte, acaso, circunstância, etc. Camus foi mais além: em pouco mais de cem páginas, mostra a fragilidade daquilo que muitos chamam de estrutura social. Mostra que a lágrima de um não tem valor algum para outro; mostra mais: que, em alguns casos, a lágrima poderá ser a diferença; em outros, será vista como um artifício ou algo natural.
Também lembrei, por associação, de "O Imigrante", de Chaplin, um filme associado à vida do autor, em que o personagem principal passa poucas e boas na terceira (ou quarta) classe de um navio que, por dedução, vinha da Europa a caminho da América. Uma das cenas mais famosas é quando o navio se aproxima do destino e todos podem ver a Estádua da Liberdade, que representa (ou representava?) o que o cidadão não podia ter nas terras de origem. E quando digo "liberdade", não estou me referindo apenas ao sentido literal, mas a outros: a liberdade de viver, de comer, de dormir, de ir e vir, de ter um teto sobre quatro paredes, de ter um emprego, de ter uma renda e poder sustentar a si e a sua família.
O Brasil e os EUA - para citar só estes - foram alguns dos países que abrigaram milhões de estrangeiros nas primeiras décadas do Século XX. (Se recuarmos alguns séculos, vamos ver que os de casa sempre tiveram vocação para receber os de fora). De braços abertos, recebeu japoneses, italianos, espanhóis, portugueses, alemães, árabes, etc. Via de regra, recebeu e tratou todos como se nascidos nas terras do pau brasil. Eu, por exemplo, convivi de perto com uma família portuguesa, com filhos nascidos no Brasil. E toda a vizinhança tinha por aquela família o maior apreço, o maior respeito, sem nenhum tipo de preconceito por conservarem algum costume ou sotaque lusitano. Mais na frente, tive como sogro um árabe cristão que era mais brasileiro que muito tupiniquim com registro "made in Brazil" e mais católico que qualquer brasileiro filiado à Igreja Apostólica Romana.
Hoje, em pleno Século XXI, vemos países europeus - os mesmos que espalharam os seus cidadãos pelo mundo - impondo regras e criando dificuldades de toda ordem na entrada de estrangeiros, expulsando um sem número de imigrantes, exercendo políticas de fechar o cerco a todos os brasileiros que vão para lá em busca de trabalho e de uma vida melhor. Os espanhóis, que se estabeleceram aos montes de norte a sul do Brasil, estão ameaçando expulsar cerca de 7 mil, dos prováveis 60 mil brasileiros que vivem por lá. E o nosso irmãozinho, Portugal, acompanha a dança, esquecendo que muitos Manoéis e Joaquins vieram para cá, formaram famílias, se estabeleceram e estão aí, numa boa, curtindo a brisa verde-e-amarela.
E o Brasil? - Como sempre, faz uma ½ boca, pratica um talião fora de moda, convidando uns gatos pingados - turistas, é bom frisar -, a embarcarem de volta para o país de origem (Espanha). Não resolve. Existe uma fórmula melhor, que proporcionará resultados mais objetivos. E vai, por tabela, render uns trocados para os cofres públicos. Querem saber que fórmula é essa? - Depois eu conto...
URL :: http://www.correiodatarde.com.br/artigos/30801