Recado aos jovens de espírito
17/06/2008 15h55
Rinaldo Barros
Professor da UERN
Esta é uma tentativa de entender como o contexto histórico atual do nosso mundo consegue gerar fenômenos do tipo "Miguel Mossoró", impulsionando milhares de pessoas em direção à fuga da realidade, através da brincadeira de faz de conta, na busca de um sonho impossível.
Desconfio que se trata de um processo embutido no inconsciente coletivo (se é que isso existe) de nossa população, notadamente dos mais jovens. Processo que possui suas bases na nossa dura realidade, injusta, feia, sórdida, violenta, e eivada de decepções e frustrações políticas; tudo embalado na mesmice do cotidiano e no vazio dos discursos dos poderosos.
Tudo isso gera uma incontrolável vontade de "fugir" desse mundo cruel e caótico: "pára o mundo que eu quero descer".
Como encontrar o acesso à magia, ao reencantamento do mundo, à utopia, a uma razão para viver? Através da poesia, dos sonhos mirabolantes, do amor louco, do escândalo, da zombaria, do humor, da disponibilidade para o humano, enfim.
É lógico: se a realidade é amarga, e eu não me identifico com ela, crio em minha mente um mundo diferente, da cor e do tamanho do meu devaneio: "Vamos construir uma ponte no meio do mar, com 320 quilômetros e 86 curvas". A tentação é grande.
Teoricamente, é possível dizer, longe do que pensam alguns "críticos" racionalistas, que o surrealismo nada tem de "irreal" sendo, ao contrário, a busca intransigente de uma supra-realidade. Seu ponto de partida é o próprio cerne do que há de mais elevado e sublime no coração de cada ser humano: o surrealismo busca atingir e expressar a transparência do sonho.
Por outro lado, constata-se que nossos jovens estão confusa e profundamente afetados pela desesperança, pelo descrédito nas instituições e nas autoridades, sem bússola e sem horizonte.
Qual a saída?
Construir o mais lindo dos castelos de sonhos, unindo poesia e transformação social, a mover céus e terras para dar-lhe expressão no mundo real. Esta a motivação maior dos surrealistas de todos os tempos e Nações. Aliás, fronteiras, pátrias, governos, espaço, tempo, tudo isso é considerado ilusório, questionável por todos os surrealistas.
Nada mais fácil de entender, principalmente para os jovens, a atitude surrealista de imaginar que pode tentar transformar a vida na cidade onde vivem como num sonho, ainda que seja mirabolante, louco ou grotesco. É o novo dentro da mesmice. Lamentavelmente.
Miguel Mossoró já foi, em 2004, o campeão de votos entre os adolescentes desencantados com os políticos e com as instituições. Expôs algumas lideranças ao ridículo de segurar a lanterna das eleições.
É a hora e a vez de mudar o compromisso diante da vida, resgatar e transmitir, através de exemplos e atitudes, os valores sobre os quais foi erigida a civilização: verdade, justiça, honestidade, beleza, dignidade, pais e mães da esperança de se construir um futuro melhor para a Humanidade.
Bem que os atuais candidatos poderiam, de imediato, utilizar o seu poder de comunicação com o eleitorado para alertar acerca da responsabilidade de cada um na hora de votar. Seria uma ótima oportunidade de colaborar com a campanha do TSE, e uma forma concreta de contribuir para a construção da cidadania.
Brincar de faz de conta é muito bom, mas somente com muito estudo e trabalho é possível transformar o mundo. Na hora de votar, não adianta tirar onda.
Votar é papo sério!
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