Mau olhado, encosto e espinhela caída
21/06/2008 14h34
José Carlos L. Poroca
Advogado, executivo do segmento shopping centers
Aventurei-me a bancar o contador de lorotas, narrando o que via nas praças de alguns centros de capitais, quando observava os camelôs vendendo seus produtos que curavam todos os males. Já na época, sentia que havia engodo e, mesmo com pouca idade, percebia que alguma coisa estava fora de ordem. O texto falava sobre o camelô das meias que não rasgavam e de outro que vendia um produto que curava qualquer tipo de doença, tendo, como auxiliar de vendas, uma cobra (acho que uma jibóia) que ficava enrolada no pescoço do marqueteiro. Era, sem dúvida, uma forma de 'hiptonizar' a platéia, de forma - direta ou indireta - a induzí-la a comprar o produto.
Um amigo, lendo o dito cujo texto, lembrou de outro que percorria as praças do interior potiguar, vendendo, com garantia, um produto que curava tudo, inclusive quebranto, encosto, inveja e espinhela caída. O mais interessante, segundo Wellington (o amigo), é que, em alguns casos, os males sumiam e os 'curados' faziam comerciais gratuitos do produto, principalmente junto à vizinhança. Quando o camelô retornava, não precisava contratar 'tapias' (utilizados para confirmar a boa qualidade do 'medicamento'); os 'curados' da localidade faziam este papel e, como remuneração, recebiam uma ou duas garrafinhas do remédio milagroso.
Estou retornando com o assunto porque estou em estado de estupefação, após assistir a uma palestra de um conhecido jornalista carioca sobre os cenários futuros e as perspectivas econômicas das terras do pau-brasil. O título não era este; estou apenas colocando a cereja sobre o chantilly, para mostrar a importância do tema, que atinge 100% dos brasileiros vivos e mais os que virão nos próximos anos. O assunto, sem medo de estar dizendo mais uma bobagem, é mais importante que o mensalão, que os cartões corporativos e muito, muito mais importante que a 'renúncia' de Fidel.
O jornalista não utilizou notebook, projetor, planilha ou algo parecido; só o famoso gogó e, como cola (a 'fila'), dados colhidos em jornais e revistas brasileiros e do exterior. Durante cerca de uma hora, o palestrante, de forma taxativa, conseguiu me convencer que tudo que vejo e escuto sobre o Brasil deve ser jogado no lixo; é fruto da minha fantasia e da criatividade de brasileiros que sentem no bolso o estado das coisas, como o desemprego, a falta de moradia, o comércio informal desenfreado (canal de sobrevivência pela falta de oportunidade), a violência sem fim, a corrupção de canto a canto, etc. Nada disso ocorre; é tudo invencionice não sei de quem.
Segundo o palestrante, no País, a desigualdade de renda será quase nenhuma dentro em breve e, em quatro décadas, seremos a 5a economia do mundo, atrás dos EUA, da Índia, da China e do Japão e na frente da Alemanha, da Itália, e da França. Vou repetir: em 2050, o País terá o 5o maior PIB da terra, com base nas projeções feitas por institutos internacionais de alta respeitabilidade, levando em consideração o PIB calculado a partir da paridade do poder de compra de seus habitantes.
Para encurtar a história, sai do auditorio imaginando: "eu sou o cara!". Já passava das 22h e não consegui dormir. Acordei com uma agitação estranha e fui à luta. Estava com firme propósito de renovar o vestuário, de comprar um apê à beira-mar e trocar o carro (o palestrante também recomendou: "façam dívidas!"). Dei com os burros n'água. Fui trocar o guarda-roupa e me dei mal: limite do cartão estourado. Fui comprar o apê. Numa das imobiliárias, demorei cerca de 20 minutos; noutra, um gaiato ainda falou: "alôôô!". O pior ocorreu na concessionária, quando o vendedor recusou o meu carro (usado) como parte de pagamento, alegando que não trabalhavam com aquele tipo de veículo. Ofensa em dobro.
Não desisti. Vou apelar para as rezadeiras (benzedeiras) do Ceará para tirar os encostos, maus olhados e ziquiziras que podem estar junto e em cima de mais de 90% dos brasileiros. As recomendações estão gravadas e ficarei no firme propósito de passar a ter um padrão de vida canadense: eu, vizinhos, parentes, colegas de trabalho e torcidas de todas as cores. Em síntese: vou me preparar para esperar mais quatro décadas, pois, como já disseram, em 2050, teremos uma economia...
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