Todo dia
12/07/2008 12h10
José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento shopping centers
Existem algumas coisas indesejadas que ocorrem no nosso dia-a-dia, muitas delas sem a nossa provocação e sem que a nossa vontade prevaleça. Não vou falar - e já estou falando - no trânsito caótico, que passou a fazer parte das nossas vidas e já se integrou ao rol das desculpas pelos atrasos de qualquer natureza. Para se percorrer de carro (próprio, táxi, ônibus) alguns quilômetros, desperdiçamos uma quantidade de tempo imensurável. Chamo isso de tempo perdido, irrecuperável, sem ganhos. Tento buscar um único ponto positivo; não acho.
O lamentável disso é que as pessoas já se acostumaram a essa desordem. Procuram tratá-la como algo natural, como se fizesse parte das nossas vidas, como se estivéssemos lidando com um fato do mundo moderno. Não sei se alguém parou para calcular que ficar preso no trânsito e perder duas horas por dia significa perder mais de uma semana por ano; em 4 anos, perda de um mês; em 12 anos, perda de um ano das nossas vidas. E não coloquei perdas maiores, como o desperdício provocado pelos engarrafamentos, passeatas, desfiles de blocos, obras, acidentes, etc.
Vou mais além. Imaginem a situação do sujeito que mora a mais de duas dezenas de quilômetros do trabalho, depende do transporte público e está com problemas, digamos, intestinais. Após um dia de batente, cansado, estressado, louco para chegar em casa, incomodado com a situação (estou me referindo ao 'desarranjo'), se defronta com o trânsito interrompido, carros parados, o cheiro (cheiro?) do desodorante vencido pelo andar da hora, o caos. Olha para os lados, esperando ver algo que possa amenizar o mal estar. Só vê semblantes cansados, rostos impotentes, a chamada falta de esperança coletiva num único coletivo. A quem apelar? - Para a paciência, a eterna paciência, que é, ao que parece, o que sobrou.
Não é tudo. Naquele ambiente de desesperança, surge algo. Um som. Sim, o som do inconveniente celular. E o 'desarranjado', além do mal estar, se vê obrigado a escutar a conversa da jovem de cabelos naturalmente encaracolados, falando com alguém sobre o programa da sexta que vem. (Estamos numa segunda). O rapaz da frente, incentivado pela conversa da moça dos cabelos encaracolados, resolve acionar a sua arma, perdão, o seu celular; liga para alguém, iniciando uma conversa sem pé nem cabeça para passar o tempo ou para mostrar que também está armado. (O trânsito continua parado). Logo se escuta uma musicazinha, um desses pagodes ruins, como se existissem pagodes bons. De onde vem? De mais um aparelho celular. Uma senhora de cerca de 40 anos atende e passa a responder de forma ríspida. Tudo indica que era o maridão, que já se encontrava em casa, reclamando de algo.
A aflição continua. O coletivo não sai do lugar. O nosso personagem começa a suar frio, olha para os lados e não vê um fio, um único fio de esperança, algo que possa diminuir o sofrimento. Vem o desconsolo, mas ele agüenta firme. Surge um daqueles sentimentos que oferecem motivação por algum tempo (segundos, minutos) e que produzem heróis anônimos, os heróis de todos os dias, os heróis sem sobrenome que suportam com bravura as adversidades que a vida proporciona. E ele diz para si: "vou agüentar!". Respira fundo e continua repetindo: - "vou agüentar, vou agüentar!". A reflexão demora menos de meio minuto e é interrompida pelos sons que surgiram no coletivo. Constatou: mais da metade dos passageiros estava com os seus celulares acionados. Não agüentou.
A história foi baseada num episódio real e está sendo reproduzida neste espaço para contestar pesquisa japonesa realizada recentemente. O resultado (da pesquisa) conclui que o celular não oferece risco para o cérebro. A casa contesta. Oferece, sim. Os celulares, que foram criados para aperfeiçoar as comunicações, provocam males. Um deles é o emburrecimento. Também afetam os hábitos, tornam as pessoas mal educadas, contribuem para que se esqueça que existem questões como 'respeito' e 'privacidade'. E nem quero comentar sobre aquelas ligações que costumam aparecer à noite, oferecendo vantagens para isso ou aquilo, pacotes promocionais, descontos. Um desrespeito, uma zorra.
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