Lei seca não é mais a garantia de sobriedade apenas em dia de eleição
21/07/2008 15h47
Nísia M. de Sousa Cordeiro
Pedagoga / Extensionista Rural
Lei seca para enxugar o rastro vermelho deixado na negrura do asfalto. Há controvérsias. Uma cultura arraigada em "valores" não inerentes à preservação da vida. Vê-se claramente essa realidade diante da falta de cuidados com o meio-ambiente a partir do "EU", diante das doenças psicossomáticas e distúrbios psicológicos que vem aumentando de forma acelerada. A devastação ambiental, a fome e a miséria do mundo. Quantas dores e quantas lágrimas assolam o mundo em toda a sua geométrica forma.
E agora em nossas divisas a lei seca. Estatísticas provam a quantidade de acidentes evitados. Dizem que os números não mentem. Já dizia o astrônomo italiano, Galileu Galilei: "A matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o universo". Sendo assim, concordando ou não com ele, temos uma trégua nas estradas do nosso país. Quantos pais sem seus filhos, ceifados do inexplicável sabor de viver de forma precoce; quantos maridos sem esposa e filhos; quantas esposas sem seus companheiros. Quantos noivos ficaram no altar à espera da noiva que jamais voltaria e vice-versa.Quantos aniversários preparados e foram surrupiados de sua ou seu protagonista por causa da violência no trânsito. Muita alegria iniciada em uma mesa de bar, no convívio com amigos, terminou de forma trágica. Lembro de um aniversário de 15 anos que estando tudo preparado só faltava a debutante chegar do salão de beleza, mas o seu velório foi realizado no palco arrumado com o glamour de uma festa. Muito triste e traumático.
Urgências de hospitais lotadas, médicos e demais funcionários da saúde (e por que não da doença?) cansados de conviver com a dor gratuita, sem falar nos paramédicos que enfrentam a "coisa" fresquinha "in locco", cenas dignas de filme de terror. Tudo isso pode ser aliviado com a simples sansão de uma lei e isto, finalmente, se tornou realidade. Agora estão querendo aliviar a dosagem etílica, acham a lei extremamente severa. Seria bom então, fazer uma enquete entre as pessoas que perderam seus entes queridos tragicamente. O resultado é bastante previsível.
Não vou negar que tomar uma cervejinha com amigos ou outra bebida qualquer não faça parte da nossa cultura de diversão. Não nego também que por causa da "Lei seca" eu tenha perdido oportunidades de momentos agradáveis em casa de parentes ou amigos, até mesmo em outros ambientes tão, ou mais agradáveis. Portanto, estamos nos organizando enquanto família (até pra isso serve, para agregar o diálogo familiar no dia a dia corrido) e aderimos ao revezamento. A cada saída alguém se diverte a la suco, refrigerante e se embriaga pelas conversas e se diverte pelo simples fato de estar junto de quem gosta. Assim, temos a garantia de que há sempre alguém preparado para ser condutor do veículo que nos levará de volta pra casa. Assim, não pomos nossa vida em risco nem impingimos aos outros uma direção perigosa. Isso funciona. Caso ninguém aceite a abstinência então é o plano B que entra em ação, o antigo e familiar táxi, que estava perdendo espaço em nosso universo de concorrência. Quando a grana está pouca então se recorre ao velho transporte coletivo, o "busão". Não anda de "busão"? Então uma farrinha íntima em casa é a solução, até rimou, de forma medíocre, virou "jingle".
.Mas, sabemos que nesse país onde em tudo há atitudes escusas e a corrupção anda solta feito o diabo no meio do redemoinho, como dizia o irreverente mestre Guimarães Rosa, nenhuma lei é fácil de ser cumprida. Alternativas para burlar a lei já são estudadas. Parece que estamos socialmente sem controle, sequer gostamos das leis a favor da vida, da nossa vida! Uso do capacete obrigatório com sinais luminosos, uso do cinto de segurança, cadeirinha infantil entre tantas outras. É incrível como nós brasileiros somos resistentes às leis elaboradas e sancionadas para garantir a nossa própria segurança.
Entretanto nos é assegurada a irrevogável decisão em fazer esta funcionar. Tudo é muito complexo. Vejo meu filho de 21 anos ser assaltado com a namorada logo após a saída de uma boate enquanto esperava a chegada do táxi. Levaram-lhe tudo e felizmente lhe deixaram a vida. Estamos sem alternativas contra a violência. Se, pelo menos, a violência no trânsito pode ser reduzida mediante a lógica proibição do uso etílico junto à direção, precisamos usar da consciência cidadã e cooperar. As alternativas que devem ser buscadas e planejadas devem centrar-se na questão do fazer a lei ser cumprida à risca. Sejamos coniventes à valorização da vida.
Organizar a sociedade a favor da vida é a meta a ser almejada pelas civilizações. É mister finalmente aprendermos o real sentido dessa palavra na prática. Civilização: é o estágio da cultura social e da civilidade de um agrupamento humano caracterizado pelo progresso social, científico, político, econômico e artístico. Quanto maior a civilidade e mais evoluída uma nação, maior é o seu grau de civilização. O vocábulo deriva do latim civita que designava cidade e civile (civil) o seu habitante (wikipédia,20/07/2008, 13h 56').
Pensando assim podemos alcançar um nível de civilidade condizente ao esforço e potencialidades mentais do ser humano num processo holístico de desenvolvimento que possa nortear a sociedade na construção do espaço ideal para a sobrevivência das espécies em harmonia com o universo. Na teoria é uma ação simples e inspiradora, na prática, um desafio constante. Quiçá aos poucos e com a ajuda de cada cidadão possamos desfrutar da quimérica paz.
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