 A mochila
... Porque tenho dezesseis anos e já não sou uma menina, meus pais acham que eu ainda uso cueiros, olha aqui, a fraldinha que estou usando!" (Era um nada de calcinha, daquelas que incomodam no regaço porque se acomodam ali, enfiada, dentro.) Mulher pulamordideus! como é que agüente usar uma coisa dessas? Minha roupa de baixo é sexy, tia, adoro marcar o jeans e as pessoas olharem para mim quando passo. As pessoas não, né, os homens, e se você passa, como é que sabe que eles ficaram olhando? A gente sente, né? molha a calcinha. (Essa vai ser bandida indo e voltando.) estudo, tia, passo de ano e já resolvi o que vou ser: jornalista. essa coisa de registrar os fatos é bacana. tenho dezesseis anos, tia, virgem, virgem, mas só sabe eu e Deus o quanto me custa ficar assim. É, deve ser mesmo um grande sacrifício para sua digníssima pessoa manter-se em estado natural para... Para que, tia, me diga, para que? complete a frase! Ora, para ser respeitada, para ser... (faltaram-me palavras para defender aquele pequeníssimo pedaço de carne, sem função fisiológica, só social: o cabaço.) não sei, minha filha, até hoje é assim. Pois é, então parou comigo, não levo isso adiante! Sei como é tudinho, tia, só nunca fiz. Assisto filme de sacanagem, sacomé? (Sabia, sabia sim, já tiveram dezesseis anos). Não, não sei não, não lembro... Que pena, perdeu, então. Ana Paula, crie juízo, mulher, deixe essas bobagens para depois, concentre-se nos seus estudos. E não me concentro? só tiro nota boa. uma coisa não tem nada a ver com a outra. Andam juntos, criança, o pensamento e a ação, já ouviu falar que quando a cabeça não pensa o corpo padece? O que é padece? Olhai, tá vendo? Uma palavrinha à toa dessas e você desconhece até o significado, é uma tolinha... (...) Acho que a gente esquece um pouco quando vai ficando velho o acontecia com a gente no passado. O que por exemplo? Ah! não vou ficar dizendo para você, né, Ana Paula? isso não é assunto para criança. Não sou criança! Ora se não é! se enxerga, nega, se olha no espelho! Não sou criança! Ah, não é não, é? o que é? vai chorar? tá vendo? bem que eu disse a sua mãe que esse negócio de conversar contigo não ia dar certo. ora, se ela que é a mãe não resolveu, sou eu que vou decidir essa parada? desfaz essa mochila! Calma, tia, vê só, esquece tudo o que a gente conversou, tá? vamo fazer de conta que a gente tá começando agora, certo? olha só, tia, tenho dezesseis anos, estudo tanto, tudo o que vocês tem medo para mim não é novidade, não sou inocente, entende? sei os riscos. Sabe nada, cueiro. e, olhe, se eu fosse você ia trocar essa calcinha que isso dá uma assadura danada. desfaça a mochila, Ana Paula! Não, tia, peraí, olhe sabe aquele papo de viajar para dá o que a terra não come? brincadeirinha...! eu só estava querendo viajar com a turma, o Mateus nem vai. Ah, vai não, o Mateus? Não, não vai. E pode-se saber por que seria que o Mateus está lá fora, de mochila em punho, dentro do carro, esperando, sabe-se o que? Ah, o Mateus tá lá fora, é? É, está. Hum... não sei, nem sabia que ele estava lá. Ai, Ana Paula, você me dá nos nervos, por isso que sua mãe queria lhe moer todinha com o cabo da vassoura na semana santa! são essas coisas, minha filha, pelo menos não minta! Ora, tia, mas se quando vou dizer a verdade vocês também não deixam! o que faço? ( fiquei com pena daquela juventude toda, pungente, viçosa, alegre e ao mesmo tempo tão inocente da vida, quem sou eu para lhe tolher as vontades? Como posso querer ser o trator do revés de seus desejos e vontades?) ...É seguro, Ana Paula, essa história de praia? (o rosto da menina se iluminou além do amanhcer) Ora, se não é, tia! vai deixar? Vou e seja o que Deus quiser. E foi assim, Simone, que nove meses depois você nasceu. Linda e rosada e de pai embriagado. Erramos com sua avó, erramos com sua mãe, minha vida inteira foi cuidar de vocês, já estou velha, criei todas vocês sem pai nenhum para ajudar. Deixei minha vida de lado, nem me casei, porque tinha sempre uma de vocês na minha vida para alimentar ou vestir. Não senhora, Simone, se você não solta essa mochila...
E-mail de leitores
Recebi uma mensagem que me fala sobre o condicionamento cultural intrínseco a gestos, palavras e atitudes; transcrevo: "... que nos condicionando e fazendo crer na impossibilidade de convivência isonômica entre mundos e comportamentos aparentemente tão distintos...." O leitor reportava-se à crônica The Woman Pretencios, publicada na semana passada. O texto todo está assim, magistral.
Leitura Para Dar de Presente
Neste livro, Jairo Severiano assumiu uma tarefa enciclopédica - contar, em um único volume, os mais de duzentos anos de história da música popular brasileira. Para isso, estruturou a obra em quatro tempos - formação (1770-1928), consolidação (1929-1945), transição (1946-1957) e modernização (de 1958 até os dias de hoje). Em cada uma dessas fases, o autor contextualiza historicamente os gêneros e movimentos, bem como os compositores, músicos e intérpretes que melhor souberam representá-los. Uma ótima dica para dar de presente, e esperar o agraciado abrir tomando um bom vinho e ouvindo música de qualidade. Na Poty, procure o Itamir, ele lhe ajuda. Título: Uma História da Música Popular Brasileira Autor: Jairo Severiano Editora: Editora 34 Edição: 01
URL :: http://www.correiodatarde.com.br/colunistas/liria_nogueira-32380
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