Correio da Tarde

Pena Aberta - Líria Nogueira


Interino: Antônio Alvino da Silva Filho

Mundo mundo vasto mundo

... De repente o papel que voava esbarrou na janela. A leitura foi inevitável. Não acreditou. Leu mais uma vez a manchete e conferiu se o jornal era do dia. Era. George Bush quer implantar o socialismo nos Estados Unidos, ao distribuir com os americanos o prejuízo de US$ 700 bilhões para evitar o colapso financeiro do capitalismo. Como isso era possível, se cresceu ouvindo militares daqui e americanos de lá dizerem que os de esquerda comiam criancinhas? Perturbado, Elias dobrou o jornal, montou e partiu.
Durante o trajeto diminuiu a estranheza ao recordar os problemas da cidade. Aqui também se bolam as trocas. A globalização abrange as loucuras. Na esfera política local não há cor partidária, como antigamente, quando era possível saber quem era "verde" ou "encarnado", cores que não se misturavam. Nas eleições atuais, a mudança de cor é constante, arco-íris enfrenta arco-íris, adversários políticos sobem no palanque e pedem voto para o mesmo candidato. Isso o fez lembrar o que dissera seu pai, segundo quem político é tudo a mesma coisa - e coisa ruim. Achou a frase por demais rigorosa e generalizante - e tratou de minimizá-la: em verdade podemos duvidar da origem do patrimônio de oito em cada dez políticos. Mas outro era o assunto que azucrinava o seu juízo.
Elias precisava chegar logo à casa de Beatriz, por isso acelerou sua 750C. Não avançou muito, porém. Logo se deparou com uma carreata formada somente por esse meio de transporte que representa metade da frota da cidade. Era mais uma marcha daquelas coligações formadas por uma série infinita de inexpressivos partidos. A custo se desvencilhou do cortejo e amaldiçoou as outras 40.999 motocicletas locais.
Com o trânsito agora mais calmo, pensou qual seria a reação de Beatriz ao pedir-lhe que voltasse para casa. Ela saíra na semana anterior, depois da enésima briga do casal. Esta última não só era grave. Era séria. Ela juntou os pertences, saiu e foi se arranchar na casa do irmão. Beatriz agiu com grosseria ao justificar que após seis anos de convivência ele não lhe dera um chão para morar, pois já se disse que a verdade é grosseira e a sinceridade, intolerante.
Se os dois não voltassem mais, os sofrimentos seriam diferentes. O dela, menos; o dele, mais, muito mais. Isso o fez refletir sobre a causa do sofrimento humano, em especial os problemas decorrentes dos relacionamentos. Talvez a causa fosse a moral, parâmetro com que as pessoas julgam os acontecimentos indiferentes da natureza; ou o mau uso que fazemos do livre arbítrio; ou outra coisa qualquer. Fosse o que fosse, intuiu que sofria porque se relacionava - não era homem de viver sozinho. Exagerava, é certo: tinha já mulher e filhos, tinha Beatriz, às vezes outras.... Então seus pensamentos foram interrompidos pela cena que se revelava à sua frente: Beatriz não era de se prestar a incesto, e aquele a beijá-la quem era?

Elias deu meia-volta. Nunca mais retornaria ao bairro Ouro Negro.

Interinidade

Não estranhe nem mude de página, caro leitor. Tudo não passa de uma interinidade. Ela volta, a colunista vai voltar. Líria Nogueira estará de volta a este espaço na primeira quinzena de novembro deste ano, depois de tirar as breves férias de que necessita. Até lá, estarei na companhia agradável dos assíduos leitores da coluna.

Leitura Para Dar de Presente

Segunda-feira 29 de setembro se completam 100 anos da morte de Machado de Assis. O maior escritor brasileiro, ourives das letras, só agora inicia reconhecimento internacional, dado o preconceito americano em relação à literatura estrangeira. Quando se trata de Machado, não se indica uma, mas todas as obras. Ainda assim, sugerimos Quincas Borbas, que assinala a maioridade literária do autor. No além-túmulo, Quincas mostra com humor a mediocridade de sua vida.

Título: Quincas Borba
Autor: Machado de Assis
Editora: Martin Claret
Número de páginas: 224



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