Edição Número 0717 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 04 de Setembro de 2008.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0626 - Ano II
A Criação de Toinha

Dispenso sem pena a infância vivida nos filmes americanos. Cheia de gramas verdinhas, verdinhas, por aonde passam arrumadas de vestido xadrezes, crianças loiras de sorriso completo, cantarolando A Noviça Rebelde. Minhas lembranças ficaram no plano da caatinga mesmo. Aquele mato espinhento na planta do pé, mas tão reconhecidamente associado a traquinagens, que sua textura assemelhava-se à da pelúcia - que por sinal também não conhecíamos.

Na verdade, as infantas de minha época nunca iam a lugar nenhum. Vá lá, iam a piqueniques, mas só de mentirinha. No quintal e com comida de brinquedo. Eu adorava a criatividade de minha prima Toinha. Uma vez, esse arremedo de gente, fez uma colega comer folha de bananeira dizendo ela que era alface. Foi um problema porque a menina começou uns engasgos de dar dó e nenhuma de nós tinha coragem de acudir a pobre, levando-a a sua mãe, com medo do desfecho final - que era sempre o mesmo. Peia com a chinela da mãe respectiva.

Toinha tinha um misto de coragem e safadeza, que as crianças naturalmente têem e toda a imaginação que se pode caber em uma cabecinha de seis anos. Inventava situações de tal maneira, que era impossível conter o riso ou o espanto, ou os dois.
Ela queria muito uma boneca Amiguinha. Mas a renda de sua casa mal dava para alimentação. Esnobando a pobreza que a rodiava, toinha teve a súbita e brilhante idéia de conseguir fundos com a parte que lhe cabia no testamento do pai, caso e quando, ele morresse. Escreveu em folha de caderno, escrita com lápis grafite, umas palavras deixando para ela mesma o dote o Jipe Willys.

 Como pai é pai, ele assinou. Só que por providência divina, o pai de Toinha não morria, e durante os próximos três anos ela o fez assinar o mal fadado testamento mais umas quatro vezes. Ela não via televisão, não via Xuxa, nada, nada, sua criatividade estava selvagem e intocável, ninguém detém uma criança assim.

Íamos muito ao Sítio Quixabeirinha e as pessoas que moram nos sítios, não raro são limpíssimas, como não fugia da regra minha tia Nega. Para agradá-la, minha mãe levava para ela cera vermelha em lata. Uma festa! As filhas mais velhas, depois de passarem a cera no chão, tinham que retirar o excesso e faziam isso com a gente em cima dos panos, para ficar mais pesado e dá brilho melhor. Lá para as tantas a diaba da Toinha foi comigo para o quintal e tacou fogo dentro da lata de cera, julgando que derretida facilitava o trabalho. A intenção era boa, mas a cera era inflamável.

Do pensamento à ação foram milésimos de segundos: Toinha riscou o fósforo e jogou dentro da lata de cera! O fogo subiu tão alto que atingiu o varal, de poucas roupas de minha tia. A lata explodiu em chamas e nós duas em desespero!

Ninguém se feriu mais de dez chineladas cada uma. O importante era deixar reinar a criatividade, nada de vídeo games, nada de programas de televisão, nada de internet, nada, nada, só nós e o resto do mundo, sem intermediários, sem ilusões de controle remoto.

Deixar o filho menos escravo da tecnologia não é fácil nos dias de hoje. Custa, dá trabalho, toma seu tempo. O retorno é lento, mas é garantido. Mais ou menos daqui a uns vinte anos. Exatamente quando a velhice começa a bater à porta de sua maturidade.



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