
Líria Nogueira
antonialiria@uol.com.brPena Aberta
Publicado na Edição Número 0631 - Ano II
Nenhuma Mulher é SantaEra a mais pura de todas as mulheres. Era a mais honrada de todas as esposas, uma santa, um primor. Os tantos anos de casamento lhe conferiam um ar de... "insosatez", por assim dizer.
Todo o dia era a mesmíssima coisa, e a rotina acalmava-lhe o presente vivido.
Já se envergonhava de pensar, junto ao marido, de outra coisa que não fossem assuntos de casa: menino, feira, jantar melhorzinho. Á noite, as partes do marido lhe cutucavam, e ela cedia à rigidez das ações. Sempre. A falta de estudo afirmava a sua posição privilegiada de mulher provida; nunca estudara porque o esposo atencioso lhe fizera questão da ignorância, hum, hum, quer dizer... lhe fizera questão de que sua esposa nunca precisasse estudar. Mulher dele cuidava da casa e dos filhos, esse negócio de sair de casa para estudar e trabalhar fora era coisa das da vida, de mulher séria não senhor!
O prazer existindo deveria de ser alguma sensação entre ir dormir com os filhos todos saudáveis e alimentados e o fim de um domingo de praia acabado na lanchonete comendo um sanduíche e deixando os filhos comerem também. Nessas ocasiões o marido tomava uma cerveja, ou duas, ou três e lhe confundia com uma mulher nova, magra e estudada. Fazia amor e lhe olhava nos olhos, ela que não olhava, tinha vergonha se não sabia gemer nos conformes.
Prazer, prazer, mesmo, aquele negócio de gozo ela achava que nem existia de verdade. Mulher não sente isso, pensava. Homem só o seu, conhecido aos vinte e dois anos. De lá para cá uma vida normal.
Normalíssima. Até que se deu conta de que sua aparência poderia sim causar atenção a outros olhos masculinos, quando após a varrida do terreiro seu vizinho parou para lhe observar os movimentos. Varrer o terreiro era todo dia, não tinha porque aquele homem ficar olhando assim para ela, logo ela, quase morta e enterrada dos prazeres da vida, logo ela, dona-de-casa do tipo lava-passa-limpa-chão, logo ela que não tinha besteira nem vaidades e que para ir a qualquer lugar à noite bastava-lhe um banho e um batonzinho de nada. Noutro dia, de novo, olhou e parou para olhar. Ela recapitulou o que vinha fazendo para ver se estava dando sem querer o cabimento da olhada, senão vejamos: acorda, levanta, faz café, manda os meninos para escola, saí e varre o terreiro, apanha o lixo e entra. Até então nada de mais. O que será que vinha lhe chamando a atenção? A saída, a entrada, o "robie" de rozinhas azuis? Não sei... Deixa ver... Eh... Eu saio, varro, me abaixo, levanto e entro, ei! É isso!!! É a abaixada que está chamando a atenção do vizinho!
Ao abaixar-se para apanhar o lixo ela enchia a mão direita com o tecido da barra do "robie", e o punha entre as pernas, deixando a fazenda nas ancas retesada. Quando novamente levantava-se o vestido lhe procurava o regaço e, por segundos, punha-se assim mesmo, colado a pele, aderido ao verbo, como dizia sua mãe. A fenda revelada favorecia suas possibilidades de mulher corpulenta e viva, notando isso o vizinho observava o que nem mesmo seu marido via. Ruborizou. Envergonhou-se. Afligiu-se pelo prazer recém descoberto. Uma ondinha fina lhe percorreu a espinha e suas vergonhas ficaram quentes. Então é isso que se sente?
No dia seguinte foi novamente varrer o terreiro.
E deliciou não mais inconscientemente seu vizinho mais uma vez. Agora regogizada, vingada pela traição nunca feita, mas cheia de forca pela certeza do sentimento despertado. Ainda de costas sorriu baixinho... O marido nunca, nunquinha na vida desconfiaria dessa sua arrumação, nunquinha...
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