
Líria Nogueira
antonialiria@uol.com.brPena Aberta
Publicado na Edição Número 0649 - Ano II
A esmola de rua e a dignidade do cabocloCom quarenta e dois anos de idade, pele escura e seca do sol, cheia de meninos por dentro e por fora, dona Maria me enche os olhos: sentada na calçada da Câmara dos Vereadores de Mossoró esperando chegar uma feira ou a morte, vinda a galope, das entranhas de seu miserê. Teve nove filhos, três morreram, mas ela se diz conformada "porque Deus queria eles para fazer uma escadinha no céu". Do alto de minha maldade, achei a frase meio ensaiada, assim como se ela já tivesse percebido que frases assim comovem pessoas, não me comovi.
Observei, no entanto, sua precária situação. Incutimos a idéia de espera em quem precisa mesmo é de ação. Vamos dar isso, ou aquilo e fica um monte de gente com a boca aberta, esperando, como passarinho quando vai se alimentar. Lá mais à frente: "esmolinha pelo amor de Deus...?" Saído da boca de uma menina de pouco mais de dezoito anos, com um bebê no colo. Pó, paciência!
- Dô não, mulher, perdoe.
- Carquer coisa selve, dona, olhe o menino.
Voltei a passada e sentei ao lado dela:
- Comadre, dô não, e se não dou é para proteger o seu menino.
-Dê aí, o que puder.
- Mulher, você não está estudando por quê?
- Ora que pergunta, dona, não está vendo a criança?
- E desde quando menino é impedimento para estudo?
- Desde que não tenha quem fique com ele.
- Mulher, melhore. Aposto que tem creche perto de sua casa.
- ...
- Tem, não tem, não?
- Tem...
- Como, não ouvi?
- TEM!!
- Olhai, ta vendo? No instante você sabe falar.
- Olhe dona, se a senhora quiser ajudar, ajude, se não vá passando...
- Mas eu estava passando, você que me chamou.
- É, mas vá passando para não enganchar.
- Mas valha-me Nossa Senhora, em que tempos estamos!
- Pois é, sou pobre, mas ninguém me humilha não.
- Criatura de Deus, na hora em que você senta nessa calçada com essa criança no colo, você está se humilhando até não puder mais, daí não tem para aonde ir, mais não, entendeu?! Cadê o dinheiro do governo? Cadê o pai desse menino?
- É porque eu não arranjo emprego.
- Você sabe trabalhar de que?
- De empregada nas casas dos outros.
- Pois bora trabalhar na minha...?
- Agora?
- É agora, agorinha mesmo, levo os dois de carro.
- Sabe que que é... É por que... Não, sabe o que é..?
- Sei, comadre, sei sim, Deus tome de conta desse menino.
Fui-me embora sem olhar para trás. É sabido que as pessoas tendem a repetir comportamentos que lhe são gratificantes e não repetir os que não são, é um princípio simples, mas o homem nasceu livre e, no entanto, acorrenta-se à caridade dos outros. Renunciar à própria dignidade não é incomum entre os pedintes, perpetuar essa condição é atitude que depende muito de cada um de nós. Não sou a favor da esmola de rua. Hum, hum, sou não. Pode ser até que por conta dessa posição eu esteja em uma escala direta para o inferno, mas não colaboro com uma mãe pedindo dinheiro, principalmente na frente do filho. Não posso deixar que ele acredite que deve ter o mesmo destino da mãe, ele deve ter destino diferente, ele pode ter um destino diferente e se perguntar ele quer ter um destino diferente.
Prêmio Sesc de LiteraturaAbertas até o dia 15 de Agosto de 2008, o Prêmio Sesc de Literatura é promovido pelo Departamento Nacional do Sesc e dividido em duas categorias, romance e conto. Quem estiver interessado em participar deverá procurar o Sesc Mossoró tendo na mochila um acervo razoável de escritos inéditos, o concurso vale para trabalhos nunca publicados. Boa sorte.
Leitura Para Dar de PresenteUm homem querer virar bicho essa história, pelo menos uma vez na vida, já ouvimos falar, o doce, ou melhor, a rapadura deste romance se expressa nas aventuras de Dualiba, agora Ojuara, cortando o sertão em terras potiguares. A descrição do autor dos cenários por onde Ojuara passa, é engraçada e envolvente, destacando o apreço erótico que o personagem tem por mulheres. É leitura para maiores, excelente opção para presentear amigos homens na idade do lobo. O exemplar você adquire rapidinho na Poty Livros, e se for na loja de Mossoró, a gente ainda toma um café, passa lá.
Título: As Pelejas de Ojuara,
O Homem que Desafiou o Diabo
Autor: Nei Leandro de Castro
Editora: ARX
Edição: 04
Número de páginas: 271
Leia os artigos das outras edições...