Edição Número 0742 - Ano II - Natal e Mossoró, Segunda-feira, 06 de Outubro de 2008.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0660 - Ano II
O pé da gente

- Aiii!
Julgo não conseguir retratar no papel a bravura desse "ai", soltado às duas da tarde em pleno exercício de ida para a procissão de Santa Luzia.
O sapato que estava apertando o pé da menina a deixava com um andar estranho, meio de lado, querendo ela com isso livrar um pouco da pontada de dor, o calo do pé já dolorido. Mas estava tudo combinando. A procissão, a hora, a menina de seus doze anos metida numa saia plissada pela mãe ou por uma tia provavelmente quando ela tinha oito anos. A saia estava curta, mas a visão não se tornava erótica, pelo contrário, tudo era pura inocência na menina com o sapato lhe importunando o pé.
Até andar. Andar de quem está com calo é bem característico. É único. Anda-se coxeando para o lado da parte afetada e dessa forma os ombros constituem-se num joguete para lá e para cá, quase como se o indivíduo estivesse dançando uma música lenta e inclui os ombros no bolero para dar o charme. Era o caso da menina, só que sem o charme.
- Ai!
Compadeci-me da cena e apressei o passo em busca do conjunto de dor em que se tornava aquela criança. Elas, a menina e sua mãe, iam passando em frente de minha calçada e saí ao encontro delas como quem queria atear a caminhada.
- Boa tarde, minha senhora, estou que a menina está com um calo, de longe que ela vem tombando...
- É... É o sapato que está apertado, fez um calo e agora está roçando em cima dele.
Franzi a testa numa expressão evidente de compreensão imediata daquela agonia:
- Quer um band-aid para aliviar?
- Já coloquei, só que caiu.
Nessa altura da conversa, a pobre da menina equilibrava-se num pé só, porque o outro estava suspenso do chão, voltado para trás, o calcanhar lhe tocando a bunda e ela segura o pezinho magoado com a mão direita, com a esquerda ainda segurava a mão da mãe. E continuava sua pequena tortura:
- Mãe, ta doendo...
- A senhora não quer sentar um pouquinho? Só para descansar o pé e beber um copo dágua?
- Mãe, ta doendo...
- É porque eu fiquei compadecida da criança, mas a senhora é quem sabe...
- Mãe, ta doendo...
- Pois me dê, mulher, um copo dágua pra essa peste tomar!
Comecei a pensar que tinha feito uma besteira ao interceptar aquelas duas. Mesmo assim, para me refazer, fui pegar a água e um pedacinho de doce de goiaba para cada uma, como que para me desculpar por ter me metido. Ela passou a água para a menina:
- Toma cão!
Retruquei dizendo que ela não falasse assim com a menina, até mais porque elas estavam indo para um campo santo que era a procissão, e de que valeria a fé sem o respeito cristão?
- Comadre, pé da gente também é gente.
Para mim bastou. Para mim até então, meu pé tinha sido só meu pé mesmo, nunca tinha dado-o como uma pessoa, por vezes não lembrava nem de que ele era parte de mim. Quantas vezes no dia lembrava de meu pé? Geralmente nenhuma. Quando uma mulher passa por vidro de carro olha a bunda, não olha os pés. Diante da contestação da mãe, retraí-me. E atribuí outra importância aos pés, a quem devo, no mínimo, o prazer da locomoção.
Até terça que vem!

Ousadia Literária na Praça Potiguar

Com lançamento previsto para logo, Cameron já nasce com sucesso. Tive o prazer de manusear os originais e asseguro-lhes que trata-se de uma obra inusitada aos leitores aos quais se destina: o publico infano-juvenil, ou adolescentes de 06 a 60 anos. O autor é médico, um cirurgião cabeça-pescoço que transfere para a caneta sua competência habitual com o bisturi. Aguardem.

Leitura Para Dar de Presente

A história se passa entre os anos de 1939 e 1943 e superou muitas de minhas expectativas , da capa ao resto. Nada sobre o stigma nazista enquanto todos esperam mais sofrimento e dor aos judeus, nada disso. A pequena Liesel Meminger é uma criaturinha intrigante, amante de livros, amante da vida. E arriscaria até dizer que esta leitura é alto astral sem perder a densidade característica de um excelente romance. Ótima opção para aquele amigo intelectual que você acha que tem tudo e não sabe o que lhe dar de presente. Passe na Poty Livros e faça uma embalagem bem bonita, o único risco é acertar.
Título: A menina que roubava livros
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrínseca
Edição: 01
Número de páginas: 480





Leia os artigos das outras edições...

01 de outubro de 2008
23 de setembro de 2008
16 de setembro de 2008
09 de setembro de 2008
02 de setembro de 2008
26 de agosto de 2008
19 de agosto de 2008
12 de agosto de 2008
05 de agosto de 2008
29 de julho de 2008
Publicidade
Rits Comunicação & Tecnologia
Impresso
Edição Número 0742 - Ano II

anuncie
Edições anteriores




Conheça a Rits Comunicação & Tecnologia © Copyright Correio da Tarde. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização expressa do Correio da Tarde.