Edição Número 0743 - Ano II - Natal e Mossoró, Terça-feira, 07 de Outubro de 2008.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0673 - Ano II
The woman pretentious

Escrevo nua e bêbada do apartamento 503, de um hotel qualquer, na paisagem vigorosa da praia de Boa Viagem. Alguns estão na janela do hotel ao lado, mas desconfio que a visão dos que olham para mim, não seja tão ótima quanto eu gostaria. Senão, não estariam titubeantes, espantados - nunca ouvi falar em beleza que assustasse, a beleza seduz e atrai. O que parece ser o que definitivamente não ando fazendo. A culpa talvez seja minha.
Ando pensando porque urge a mulher em contrair matrimônio.

Algumas aderem à submissão e à pertinência desse enlace com evidente sofreguidão, mas não no meu caso, sou o homem de minha própria vida, ou tentei. Antes de chegar a este infortúnio de aparência eu fui jovem e bela. Logrei blefe com quem quis e com quem não quis para não perder a viagem, no entanto, neste momento me espelho no vidro deste quarto de hotel e o que vejo não é bom. Desdigo mais por dentro, do que por fora. Só se conhece a mulher, convivendo com ela, vendo-a, respirando-a, parindo-a, partilhando de seus demônios, que não são poucos.
Oduvaldo sempre me disse que toda mulher é a encarnação do descomido, dispenso seus sinais de cruzes, Zefinha, e continuo dizendo que é mesmo. É um desacordo um ser vivente dos céus vir com tantos orifícios de perdição nas orelhas, pelo rosto, entre as pernas, por todo canto! E a gente tem que conviver com isso, muitas vezes fazendo de conta que é tudo normal, é natural, é sem função. Como pode o mundo ser tão cruel? Nem islâmicos, nem africanos, retiram o clitóris é aqui mesmo, do lado, em casa, na infância e puberdade, do Boa Vista ao Nova Betânia e agora estou vendo, em Boa Viagem também. Conheço tantas mulheres castradas na vigência do casamento que nenhum de vocês acreditaria no percentual. Não se castra só o sexo, castra-se também a projeção do que ela poderia ser.

Sou o homem de minha própria vida, ou pelo menos fui. Combati a ocultação de mim mesma pela previsão fastidiosa do enlace. Sempre lutando a batalha de um, comportando-me em favor das frustrações veladas: "mulher casada não conversa com homem, e se conversa o que se dizem?", e ainda "mulher casada não sai sozinha, e se sai, por aonde anda?" Ou compactuando do mórbido pensamento coletivo de que a fragilidade feminina não compactua com desejo da perfídia, tão comum no universo dos homens. Senhores, pasmem, somos iguaizinhas ou piores, iguaizinhas ou melhores, diriam as lesviois.

A diferença está na força física, atributo ímpar na manutenção da espécie, eles têm, nós não.

Contemplo o mar de Boa Viagem, hoje seria uma ótima noite para a despedida de tudo isso, despedida do confronto belicoso, despedida do combate sofrido à precaução, mas nem sei se vale a pena, Oduvaldo, largar o barco assim, à toa, sem mim, à essa altura do campeonato. E você, que sempre me ensinou a viver sozinha todos esses anos que passamos juntos, fica agora nesse retrato de moldura barata, olhando para mim como quem quer pão.

Eu sei qual é teu alimento, Oduvaldo, a comida é a mesma para boa parte do mundo, se aceita todas as formas de pagamento, dinheiro, afago, beijinho, cartão.

Só não é pago com estranheza pela forma como se vive. Sou o homem que eu sempre quis na minha vida, me protejo, cuido de mim, depositando em ninguém a responsabilidade deste cabresto, modesta e pretensiosamente como deve ser uma boa mulher.

Literatura é Poder

Será sexta feira próxima, às 17 h, na Poty Livros que os amantes da literatura debaterão a vida e a obra de Carlos Drummond de Andrade. Certamente uma conversa agradável, espécie de happy hour com over dose de poder. Quem realizará apresentação será o Ms. Roberto Cunha, do departamento de Filosofia da UERN. Programa de primeiro mundo.

Leitura Para Dar de Presente

Todos os olhares voltados hoje para o lançamento do livro da jornalista Izaíra Thalita. O livro de Izaíra tem nuances de fotografia. Não mais pelo fato de vir acompanhado das belas imagens do fotógrafo Fred Veras, mas muito porque é de fato, um recorte visual e descritivo da situação da pessoa idosa na cidade. Boa opção para presentear aquele amigo sociólogo, historiador, o amigo cult, entendeu? A noite de autógrafos é hoje, às 20h, no Hotel Villa Oeste.
Título: Um olhar sobre o idoso: percepções sobre a velhice em Mossoró
Autor: Izaíra Thalita
Editora: Coleção
Mossoroense
Edição: 01



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