
Líria Nogueira
antonialiria@uol.com.brPena Aberta
Publicado na Edição Número 0685 - Ano II
O Risco N´águaSaber, eu sempre soube. Como também já tinha passado por isso, mas que eu lembre nunca havia surtido em mim reação tão forte. Eu mesma admirei-me com minha pessoa a ponto de mentalmente mandar-me calar.
- A senhora não sabia não, que autenticar documento é assim?
- Saber eu sei, mas não aceito. - Respondi.
Cartório da cidade, duas horas da tarde, que eles só abrem desta hora para frente. Ambiente decrépito, porém em reforma, a dona em uma mesa ao fundo, falava ao telefone com alguém sobre uns pedidos da Natura, que ainda não haviam chegado, uns batons, lip gloss. E aquela mocinha com cara de enfado, cabelo de pé preto e camiseta sobre jeans, dizendo com seus protocolos de cartório que a palavra dela tem mais valia do que a minha, ora bolas!
- É muito errado isso! - disparei.
- Olhe, se a senhora está com algum problema fale ali com a dona. - E me apontou a dita cuja figura descrita no parágrafo acima.
Eu estava preparando meus documentos e iria participar de uma seleção para professor, na universidade. Alguns itens levavam ao lado a inscrição "autenticado", o que obrigava a me deixar naquela situação constrangedora. Eu teria, como tive, que submeter à verdade daquelas pessoas a realidade de minha vida inteira. As pós-graduações, os diplomas de trabalhos apresentados em congressos, as premiações de alguns deles. Muita noite mal dormida tabulando dados, muitos dias de pesquisa, estudo. Tanta leitura de Kafka, meu Deus, para uma criatura - sob o pagamento de dois e cinqüenta, poder dizer se aqueles diplomas eram fajutos ou não.
- É, é muito errado isso! - Era só o que eu conseguia articular.
Meu rosto fervia de indignação. E se neste momento me oferecem carapuça, não aceito não, obrigada. O fato diverge de eu querer me achar melhor de seja lá de quem for. Minha indignação era por todas as pessoas de bem, ou de mal, tanto faz. Mas era por todas as pessoas desacreditadas deste mundo sem palavra. O que faz a observação dos funcionários de cartório melhor, ou de mais crédito do que a minha palavra? Não estou dizendo que os documentos são meus?
- Senhora, fale ali com a dona... - E já foi chamando a consumidora do lip gloss que não chegava, como quem passa uma batata quente para frente. A expressão dela era: "não sou paga para agüentar cliente chata".
Paguei os dois e cinqüenta sem querer dar mais uma palavra com a dona do cartório. "Precisa não, pode deixar." Bastava saber o valor que a palavra dela tinha e que a minha importava um risco n'agua.
Será assim também nos países desenvolvidos?
Nordestinense!Gilberto era dono do misto que fazia linha Mossoró-Tibau, nos idos de 80 e 90. Viajamos com ele muitas vezes em um misto de viagem e saga aventureira. Não percebíamos, na época, o quão Gilberto era cuidadoso em detrimento de uma frota de ônibus que atende o público Mossoró-Natal, Natal-Fortaleza. Eu convidaria o presidente da empresa para dar uma voltinha em seus próprios carros, qualquer dia desses, para ver se ele escapa do interior de seus próprios ônibus.
Leitura Para Dar de PresenteNascida na Somália, exilada na Arábia Saudita, Etiópia e Quênia, Ayaan Hirsi Ali sobreviveu a culturas que tradicionalmente reservam um papel inferior às mulheres. Na Holanda, para onde fugiu depois de escapar de um casamento arranjado pela família, tomou contato com as tristes histórias de outras vítimas, exiladas ou não, e viu como mesmo nos países ocidentais famílias muçulmanas mantêm os costumes e os maus-tratos às mulheres. Neste livro, uma coleção de escritos que resume sua indignação e sua visão de uma política eficaz contra os abusos, Ayaan ataca a política oficial do Ocidente e o multiculturalismo de forma que poucos ocidentais ousaram - para ela, o Ocidente precisa ser mais duro com o mundo muçulmano. Você encontra, com facilidade na PotyLivros, é só procurar o Itamir.
Título: A Virgem na Jaula
Autor: Ali, Ayaan Hirsi
Editora: Editora 34
Edição: 01
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