Edição Número 0900 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 08 de Janeiro de 2009.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0727 - Ano II
Diário sebosinho, que delícia

Desde pequena a boa vista me informou o que era safadeza. Pouco fui inocente. Penso até que talvez tenha crescido sendo "sabida" demais. Lia escondido os livros de meu pai, com contos de Adelaide Carraro falando sobre O Estudante. Ficava excitadíssima em saber que pessoas faziam aquilo. Para completar, minha família sempre foi cheia de homens maravilhosos: meus avôs, meu pai, tios, primos, todos gente muito boa, que me respeitavam e me amavam. Cresci achando que os homens eram do bem.

E cresci sem ouvir que "homem era tudo igual", que "homem era farinha do mesmo saco" e coisas do gênero. Não via a hora de namorar e meu primeiro beijo, aos onze, foi com meu professor de matemática, da sétima série, uns vinte anos mais velho que eu. Aos quinze já sabia que prazer era gostoso, descoberto pela curiosidade. Sexo, sexo mesmo foi um pouco mais tarde, mas para que a pressa, se a viagem estava mesmo em minhas mãos?

Hoje arrumando papéis antigos encontrei um de meus diários. Reli. Que delícia. Como somos esplendidamente maravilhosos com a inconseqüência da juventude! E como esquecemos disso tudo quando a idade madura nos chega. Esquecemos quase que por vingança, como quem diz: "já que não posso mais, toma!" Com o tempo vivido, observo, porém, que há um certo charme em quem consegue inexplicavelmente manter esse ar juvenil a revelia de qualquer idade. Não juvenil a ponto de querer o viço ridicularizando-se, mas melhorando com o tempo. Reconhecendo seus limites e fazendo deles trampolins para a consistência da imagem de mais velho. Assumindo riscos e cabelos brancos e apreciando uma noite de vinho com uma taça de um bom vinho ao lado seja lá de quem for.

Dei risadas com as palavras escritas no passado, uns escritos sebosinhos, você precisava ver, coisas de namoricos, frios na espinhas, dores de barriga com mãos suando frio, dizendo ninguém acredita que se trata de uma muito distinta senhora casada. Que pode ser qualquer uma, a minha mãe, ou uma tia que mora lá em Goiás, mas que nesse momento reflete o espírito inacabado de todas as mulheres, normais por natureza, deliciosas para muitos, apreciadas por seus homens, talvez.

Torço para que as pessoas tenham tido seus diários sebosinhos fictícios ou reais. E temo por juventudes sem ousadia, pela falta de amor e de tesão, temo ainda pela falta de coragem de passar vergonha ou levar um fora vez ou outra. Escreva para você mesmo, releia daqui a trinta anos, e depois a gente conversa.
Até terça que vem.

Na Era do Rádio!

Formado por quatro cantoras e sete músicos, o musical transporta para os dias atuais, a imagem e as lembranças das grandes intérpretes e compositores que foram destaque na Música Brasileira da década de 20 até a de 60. As cantoras usarão figurinos fiéis a época. Agende aí, dia 25 de Setembro, No Teatro Dix-huit Rosado.

Leitura Para Dar de Presente

Bentinho, chamado de Dom Casmurro por um rapaz de seu bairro, decide atar as duas pontas de sua vida . A partir daí, narra a sua própria história. Morando em Matacavalos com sua mãe dona Glória, José Dias o agregado, Tio Cosme advogado e viúvo e prima Justina(viúva) , Bentinho possuía uma vizinha que conviveu como"irmã-namorada" dele , Capitolina - a Capitu . Sua mãe havia feito uma promessa, em que Bentinho iria para um seminário e tornar-se-ia um padre. Estamos no ano do centenário de morte de Machado de Assis. Cem anos de ausência, mas tão incrivelmente presente, através desse romance. Moderno, picante, misterioso. Vale a pena reler.
Título: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis



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