Edição Número 0900 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 08 de Janeiro de 2009.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0738 - Ano II
Apologia às amantes

Que é delas, as amantes, que inflamam os relacionamentos e geram imensa polêmica?
O casamento monogâmico é uma farsa social. Em sua origem, a monogamia é menos fruto do amor e mais uma convenção com a finalidade de firmar a preponderância masculina na família e de garantir a paternidade da prole.
Socialmente valorizada ainda nos dias atuais, a monogamia sempre conviveu com o fantasma dos relacionamentos extraconjugais. Como se sabe, contra o adultério, assim como contra a morte, não há remédio. O relacionamento extraconjugal - ter outra, para ser mais preciso - é uma instituição social não apenas tolerada mas praticada em larga escala, sobretudo pelos homens. Nesse contexto é que surge a amante como figura emblemática.
Ao se falar em amante, logo vem à tona o seu modo de vida clandestino e o preconceito social. Nem sempre a amante viveu na sombra e foi discriminada. No século XVIII, na Europa, era socialmente aceitável um homem possuir relacionamentos extraconjugais. Na França, o Código de Napoleão (1804) explicitamente concedia esse direito ao homem. Essa permissão chegou até os dias atuais, de sorte que na França de hoje os presidentes têm apartamentos funcionais para acomodar amantes caras, pagas com o dinheiro público. Assim Mitterrand, Chirac, Sarkozy...
No Brasil, a maioria dos senadores e deputados tem, pelo menos, uma amante e uma empreiteira. Ambas as companhias trazem problemas. A primeira consome o orçamento doméstico e abala a família; a segunda financia campanhas e cobra em dobro. Recentemente, a mais notória amante foi Mônica Veloso, que gerou um filho de Renan Calheiros e lhe tirou a presidência do Senado.
Em Mossoró e Natal, a prática de relacionamento extraconjugal grassa sociedade adentro, a misturar hipocrisia e clandestinidade. Nas rodas masculinas, os poucos que não têm amantes envergonham-se de admitir. Aqui e lá cresce a prática de instalar a segunda dama em certos bairros. Longe dos olhos da sociedade, especialmente dos da esposa legítima, o Conjunto 30 de Setembro e Nova Parnamirim, respectivamente, têm sido os bairros preferidos para a fixação do segundo domicílio.
Antes que recaia sobre nós a ira feminina e o riso irônico masculino, não nos devemos esquecer de que ao lado do marido que adoça sua existência com o relacionamento extraconjugal sempre se encontra a mulher magoada. E, uma vez magoada, a mulher tende a se vingar. Donde então a figura do marido atormentado pela dúvida, tal qual Bentinho em relação a Capitu.

Almas caladas

Num país que se pretende desenvolvido, a divulgação pelo IBGE do índice de analfabetismo é preocupante. São 14 milhões de brasileiros - metade no Nordeste - e 580 mil norteriograndenses que não conseguem ler. Nesses tempos dos "sem-alguma coisa" os analfabetos formam uma leva de sem-leitura. Incompleto é o cidadão que não participa do delicioso diálogo: o livro falando e a alma respondendo.

Leitura Para Dar de Presente

O narrador principal das centenas de fragmentos que compõem este livro é o 'semi-heterônimo' Bernardo Soares. Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, ele escreve sua 'autobiografia sem factos', sem encadeamento narrativo claro e sem uma noção de tempo definida. Ainda assim, foi nesta obra que Fernando Pessoa mais se aproximou do gênero romance. Na prosa metódica do 'Livro do desassossego', Pessoa criou um mundo; e nele faz fluir todas as suas perspectivas poéticas.

Título: Livro do Desassossego
Autor: Fernando Pessoa
Editora: Companhia
das Letras
Número de páginas: 560



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