Edição Número 0779 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0743 - Ano II
Interino: Antônio Alvino da Silva Filho

Carta aberta aos eleitos

Terminara a apuração quando se deu por prefeito. Logo anunciaram o nascimento de seu rebento político. Filho de várias mães, todas eletrônicas, engravidadas pelas digitais de milhares de eleitores, o mandato de prefeito aumentou sua prole. As comemorações se prolongaram por dias. Agora, passados os festejos, apertos de mãos e tapinhas nas costas, você está em casa exausto - e sozinho. Só então cai em si. Pensa nas expectativas geradas, nas cobranças, na ganância pelos cargos, no dia seguinte, na hora da verdade - no tamanho da responsabilidade. E teme vergar sob o peso do mandato que acaba de receber.

Nesse momento, senhor prefeito, é que tomamos a liberdade de lhe fazer sugestões, longe do calor da campanha eleitoral e das festas comemorativas da vitória.

Não se iluda, senhor prefeito: as necessidades da municipalidade são muitas e profundas, e a estrutura política que o apóia as obscurecerá em razão da luta pelo poder.

Ser prefeito é antes de tudo receber pedidos. Dos aliados, dos financiadores da campanha, do eleitor. Nossa proposta, nesta carta aberta, é propor-lhe a via do rompimento. Como já disse um filósofo, o ser humano é o único animal capaz de fazer promessas - e cumpri-las. E isso tem preço. Com o seu mandato, senhor prefeito, não será diferente.

Prezado prefeito, o que se lhe pede não é pouco. A adoção das ações políticas lhe exigirá coragem e desprendimento. Mas cremos ser o único caminho viável para afastar sua gestão da vala negra em que se transformaram todas as administrações municipais.

Quebre as promossas, rompa com aqueles que desde a campanha gravitam em torno de sua pessoa. Não basta sua honestidade pessoal para um bom governo, pois mesmo um político honesto, por estupidez, pode permitir que outros imponham prejuízos ao povo. Ao contrário do que se pensa, manter a palavra para perpetuar privilégios não é em absoluto prova de caráter.

Inicie rompendo com os partidos da base aliada. Em troca do apoio, as várias facções da colcha de retalho chamada coligação vão lhe exigir cargos e neles aboletar toda sorte de gente aventureira. Não lhes dê cargos, nem aos seus parentes e agregados. Lembre-se de que as grandes empresas são administradas por executivos, profissionais sem qualquer grau de parentesco com os donos ou acionistas, razão pela qual cai por terra alegar estrita confiança para entregar secretarias à parentela.

Rompa também com os grupos empresariais, empreiteiras em especial. Elas, como as amantes, sempre lhe trarão problemas.

 Ademais, a dama de companhia é cara. A conta vem aos milhões de reais, na forma de obras e serviços superfaturados, frutos de concorrências viciadas. Sem falar na baixa qualidade do serviço - ruas que afundam, pontes que caem, pisos que descolam...
Por fim, pasme senhor prefeito, rompa com alguns do povo! Melhor, com a promessa de recompensa pelo voto dado. Fixe-se no interesse geral e fuja das ações individuais: os tijolos para dona Mariquinha, o emprego para Joca, o dinheiro para a quermesse.

A quebra de promessa não deve ser absoluta, porém. É necessário algum compromisso para guiar o mandato de 4 anos. Não os compromissos públicos, não os firmados nos bastidores, nas reuniões da coligação, ou na visita clandestina ao líder comunitário. A Bíblia a guiar a sua gestão, caro prefeito, deve constar dos evangelhos legítimos, não dos inúmeros apócrifos.

Então, releia o programa de governo, ouça de novo os seus pronunciamentos, entrevistas e debates na imprensa. Reúna tudo isso e forme uma Bíblia fundada na sua consciência. E use-a como fonte de consulta, capitulo a capítulo, versículo a versículo, sempre que as tentações luciferianas assomarem seu gabinete...
Como Cristo diante das tentações do Diabo, só a firmeza de propósito culminará com o afastamento definitivo dos dilapidadores da coisa pública. Quatro anos é muito tempo: dá para corrigir.

Ponto de partida

O poeta gaúcho Mário Quintana definiu democracia como o mecanismo de dar a todos o mesmo ponto de partida - e então cada um fazer o seu próprio caminho. No ensino superior potiguar, a UERN dá o ponto de partida. Neste mês abrem-se as inscrições para o vestibular 2009, com a oferta de 31 cursos, 70 habilitações. Metade das vagas destina-se aos alunos da rede pública de ensino, que são isentos de pagar os R$ 100 referentes à taxa de inscrição. Cabe agora aos estudantes trilharem o seu caminho universitário.

Leitura Para Dar de Presente

O livro Ensaio sobre a Cegueira, do prêmio Nobel português Saramago, cujo filme, homônimo, estreou nesta sexta 3 nos Estados Unidos, a obra imagina uma epidemia misteriosa que faz com que as pessoas não vejam nada além de uma luz branca embaçada. O incidente resulta em um colapso da ordem social em uma cidade sem nome, mudando a vida da população. Diante de muitas necessidades, as pessoas se põem em verdadeiras batalhas para sobreviver.

Título: Ensaio sobre a Cegueira
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 312



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