Edição Número 0900 - Ano II - Natal e Mossoró, Quinta-feira, 08 de Janeiro de 2009.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

antonialiria@uol.com.br

Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0777 - Ano II
Véio não pega, abraça e dá a benção

...Digo assim, mas nem sei como são palestras dessas, porque ainda não fui. Aliás em 2004 na de Lair Ribeiro saí antes da metade para indignação de Lúcia Rocha. Mas não foi por causa dela que saí, muito pelo contrário, foi só por ela que ainda fui e fiquei por tanto tempo.

Danou-se comigo, disse de toda a inteligência dele e etecétera e tal, e que é um homem que já morou dezessete anos nos Estados Unidos, e bererê e tatatá. Eu sei, Lúcia, eu sei disso tudo, sei das qualidades de líder e da perspicácia que um homem desses, mas me desperta pouco o zumzumzum da auto-ajuda pregada por profissionais por uma razão muitos simples: não é em três horas, nem em três dias, nem em três semanas que aprenderemos o que eles têm para ensinar. E se o camarada não quiser ou se for muito tapado não vai aprender é nunca.

Eu diria que o melhor de professor de auto-ajuda são os pais de filhos pequenos. Meu pequeno Heitor nunca teve babá. Meu medo sempre foi que alguém vindo de fora lhe ensinasse coisas que nunca mais conseguíssemos fazê-lo desaprender. E eu não estava de todo errada. Outro dia arrisquei deixá-lo com uma moça, a Maria. Essa distinta senhora está conosco há um mês, é mãe de três filhos, tem vinte e nove anos e me pareceu uma mulher ajustada. Enganos ocorrem. Deixei Heitor com Maria na sala de casa por meia hora e fui tomar banho. Eu podia ouvi-los, ela o chamou:
- Ei bebê, venha para cá.
- Eu tero ir! - respondeu a sonzinho da voz me fazendo rir.
- Bebê não vai, não, é perigoso, volte! - um tanto aflita porque ele estava querendo sair para a rua.
- Eu vai!
- Não vai, bebê volta! - Apressou-se no cuidado, até gostei.
- Eu vai! - insistia o menino.
- Se bebê for o véio pega bebê!
Heitor não sabia o que era "véio", mas o tom de voz de Maria o fez entender que seria realmente perigoso o "véio" pegar. Parou imediatamente. Do banheiro ouvi tudo e me danei como se danam as crianças pequenas, saí de toalha chispando para a sala. Nunca na minha vida inteira "véio" tinha sido usado contra mim, "véio" nunca me pegou para maltratar, "véio" me abraçava e me fazia carinho, me dava a benção como sempre fizeram meus avós. Véio era para mim sempre mais sábio e mais inteligente do que eu, justamente porque era mais "véio". Como é que aquela figura usava de modo tão errado palavra tão doce? Iniciei um diálogo no limite máximo de minha tolerância:
- Que foi isso, comadre, dizer que velho pega ninguém? - quis saber me controlando.
- O menino queria sair para a rua, ora o que foi... - respondeu de soslaio.
- E não tinha outro jeito de segurar essa marra de homem, não? - ironizei.
- E o que é que tem dizer que véio pega? - insistiu na ignorância.
- Porque velho não pega, só por isso.
- Ah, se eu me importa se véio pega, se não pega, o que eu não podia era deixar o menino sair pra rua. - e voltou, sem preocupações, a sua Vale a Pena Ver de Novo.
O que tínhamos para fazer à tarde não fizemos, Alvino chegou e não tinham jantar, foi um caos completo com essa história de véio pegar. Por essas e outras, ficando calados, ajudamos a construir uma sociedade de preconceitos. Maria compreendeu e jurou nunca mais usar expressões como aquela nem lá em casa, nem na casa de ninguém. Batalha temporariamente vencida.
Até terça.

De volta ao mundo das letras, agora mestranda!

Agradeço imensamente aos leitores que sentiram a minha ausência, recebi e-mails de alguns, respondi. Alvino, meu interino, muito obrigada. No meu coração você não é interino, é permanente. Sobre a ausência, passei dois meses e meio estudando para a seleção de mestrado da UFRN, estudei muito e o esforço foi recompensado, fui aprovada.

Leitura Para Dar de Presente

Aproximando-se os períodos festivos, uma dica razoável é presentear com livros. Caso seu orçamento seja bem econômico como o meu, você pode começar comprando-os agora, devagar e sempre até o Natal. Até lá, você terá alguns bons volumes para presentear aos amigos. Hoje indicamos o livro Persépolis, da Marjane Satrapi. Um livro interessante começando pela sua apresentação: é feito por quadrinhos, nada de leituras chapadas, só imagens e desenhos. Por conta disso muito apreciável por adolescentes, mas cuidado, a leitura é extremamente adulta, a peça original é para jovens de cabeça-feita. Procure o Itamir, na Poty Livros.
Título: Persépolis
Autor: Marjane Satrapi
Editora: Companhia das Letrinhas
Edição: 01



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