Edição Número 1.896 - Ano VII - Natal e Mossoró, Quarta-feira, 16 de Maio de 2012.
Capa Colunistas Líria Nogueira

Líria Nogueira

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Pena Aberta

Publicado na Edição Número 0898 - Ano II
O copo com água faz parte da vida

Porque trabalhando o dia todo e, às vezes, também à noite, sendo também a noite menos quente que o dia, bebo mais água no trabalho, em copos descartáveis de 150 ml. Não lembro de a isso ter dado muita importância, mas ocorreu-me fato simples que me levou a ponderar sobre meu tempo escasso, minha ausência em casa, e o que a sede tem a ver com o jacaré que mora na lagoa.
Na infância a água vinha servida em copos de ágata, meio descascados nos cantos pelo fundo, cheiro de menino até antes do almoço, depois era cheiro de boca. Nem bom, nem ruim, de hálito só. A melhora de vida deixou nossa mãe comprar copos de alumínio "areados" com palha de aço e areia. O cheiro era mistura da água fresca do pote mais a limpeza expressa no esfrega-esfrega do areado com sabão de coco. Depois até os vinte anos foi só refrigerante, em copos de plástico, vidro, papel, de qualquer coisa que adolescente não liga para recipiente, nem para conteúdo, só para folia. Idade adulta e vinho em taças de cristal, que agente descobre mais ou menos aos trinta anos que não é de ferro. E hoje amanheci com esta conversa de que os copos onde bebo água no trabalho não têm cheiro nenhum. Não tem história, não tem raízes, nem personalidade...
- Está doida, a senhora?
- Como?
- Está doida, assim, falando sozinha?
Parada ao pé do "gelágua", ainda com o copo na mão, meio do líquido, olhos fechados, talvez. Viajei por um minutinho e o indivíduo, já sem idade para andar sozinho, vem achar que sou ruim da cabeça.
- Não senhor, estava só pensando alto. - E fui saindo para não dá andor a conversa.
- É por isso que o Brasil não progrede.
- O senhor acha?
- Acho não, é. - E repetiu: é por isso que o Brasil não progrede. No meu tempo a gente tinha filho para criar, hoje se tem menino para tirar foto! No meu tempo era um povo de vergonha, e hoje é essa coisa aí... Solta, sem corrutela.
E falou e eu ouvi. Falou sobre seu tempo, o respeito dos filhos pelos pais, falou da esposa em casa esperando-o com o almoço e os meninos tomados banho, falou dos deveres de casa que ele ensinava aos filhos estudantes do grupo escolar. Falou de passeios domingos à tarde para visitarem o afilhado que tivera papeira e falou que se tinha droga ela não atacou nem um de seus filhos. Segundo ele, escaparam porque a maconha traz "viagem", mas a necessidade e a fome, levam o sujeito a "viajar" muito mais. Culpou a falta de atenção e cuidado pela chegada do vício, e culpou ainda o mimo demais.
- É mesmo. - Disse eu e completei: é que para compensar à ausência a gente tende a fazer tudo o que a criança quer, quer agradar, para que ela aprenda a nos respeitar e nos ame mesmo sem a gente estar em casa direto, entende?
- Não senhora, não entendo, não.
- Se gosta do que se admira e se admira do que se vê, como admirar o que não conhece? É castelo de areia. - Disse isso, virou às costas e do jeito que veio, foi embora.
Lembrei do que estava pensando quando ele chegou. Dos cheiros de casa nos copos de ágata. Lembrei de minha casa, de minhas infindáveis ausências em plantões noturnos, dando aulas na faculdade, meu filho sendo colocado para dormir por mãos que não eram as minhas, sem beijinho, afago, reza para o Anjo da Guarda. Não pode ser por ele que trabalho tanto, ele me quer em casa. Para aliviar, uma amiga me conformou dizendo que assim é até bom porque ele crescerá independente. Não sei. Queria mesmo que ele fosse dependente de minha confiança, de meu amor, de minha força, queria mesmo é que ele me visse, não queria ser mãe só quando estou de folga do trabalho. Afinal, a gente tem filho para quê?
Vou ver se bebo mais água em casa esta semana.







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