"A moda fomenta desenvolvimento para o Brasil"
Publicado no Dia 19/09/2008
Roberta PimentaDiego Negrelos

Paulo Borges: Felicidade e Paixão são próximos temas do SPFW, em janeiro e junho
Paulo Borges é um homem de fala mansa, porém firme. Aos 45 anos, 28 deles dedicados ao mercado fashion, acredita que a moda é sua missão e se entrega a ela sem restrições. Ele veio a Natal a convite do Sebrae para proferir uma palestra no Natal Fashion sobre a importância da marca e nos concedeu essa entrevista exclusiva onde fala sobre seu evento o São Paulo Fashion Week, presente e futuro da moda, a indústria têxtil, criadores, internacionalização e política. Confira os principais trechos abaixo.
Marca “É um instrumento de trabalho, gera fomento para o desenvolvimento. O Brasil está aprendendo a trabalhar a moda que é muito jovem. O SPFW existe por causa do negócio da moda que tem a capacidade de envolver pessoas, temos a função de identificar o design, a inovação, alçar o Brasil a percepção internacional. Somos uma plataforma que tem o evento, um portal, o jornal e a revista, todos com selo de proteção ambiental. Somos neutros na emissão de carbono. Estamos no quinto lugar das semanas de moda no mundo junto Nova York, Milão, Londres e Paris.
Um produto para se firmar hoje tem que ter verdade, qualidade e sentido. Para construção da marca são importantes os seguintes fatores: o controle, a inovação, transparência e a responsabilidade social, num trabalho continuo.
Meu pensamento da marca/evento SPFW foi feito para trinta anos. No mundo da moda, quanto mais tempo tem uma marca, melhor ela é percebida. Há primeira década foi a da implantação; a segunda, da qualidade, e a terceira será a da internacionalização. O tema da próxima edição, em janeiro, será Felicidade, que gera interface na criação, e o de junho será Paixão, pois é o ano da França no Brasil.”
Números e Negócios“O país tem 30 mil empresas no setor, com faturamento de R$ 50 bilhões ao ano, e emprega 1.7 milhões de pessoas, sendo a segunda indústria do país, com crescimento na geração de empregos na última década de 5%, nem o país cresceu isso. O evento (SPFW) movimenta R$1,5 bilhão nas duas edições anuais. O faturamento da cidade em bares, restaurantes, cinemas e lojas tem um aumento de 25% a 30%, nivelando-se com outros eventos já consolidados na cidade como Bienal de Artes, Formula um e a Parada Gay. Temos R$ 350 milhões de mídia espontânea gerada nos sete dias de evento. Só perdemos em mídia para o futebol que é a grande paixão nacional. Hoje temos 150 cursos de moda espalhados pelos Estados sendo que 30 deles são de nível superior”.
Eventos Locais“Eles têm o papel de educar, fazer a lapidação, dar entendimento de moda, no trabalho com a cultura regional. Existe uma simplificação da cultura local que é sobreposta à informação global. O hand made local se perde, a forma fica igual em todos os lugares, o que poderia ser importante fica secundário. O estilista não está criando. E a informação hoje está disponível ao alcance da telinha do computador, se o criador não tem está perdido”.
Brasil“Precisamos urgentemente de mudanças gerais (tributarias, trabalhista), pois o país perdeu a passagem para evolução faz tempo. A Itália fez isso nos 60/70 onde era considerada dormitório (costurava, fornecia matéria-prima) industrial para França, e hoje exporta design para o mundo. Nós não crescemos mais por falta de capital, não temos política de desenvolvimento, precisamos desonerar, ter uma economia criativa que foi o que salvou a Inglaterra e o Japão. Pensar o Brasil de forma múltipla e convergente, juntar as agências de fomento, educar e treinar. Não exportamos mais, pois é caro é uma política de longo prazo. O mundo ainda compra hoje do Brasil porque é barato.
Precisamos de fábricas de roupas com qualidade para as marcas. Não tem política para a moda, tem dinheiro para as máquinas, mas não para a produção. Eu tento há 25 anos fazer a parceria da indústria têxtil com a confecção. Hoje existem cinco ou seis conglomerados de origem fabril e financeira, e isso vai provocar uma mudança no mercado a médio prazo, e isso faz parte da internacionalização”.
Estilistas“Os novos estilistas devem ficar dez anos trabalhando para os outros primeiro, para depois ter sua marca, seu nome e seu negócio. Já vi muito novatos se endividarem por falta de humildade e experiência. O sucesso do Alexandre Hercovitch, por exemplo, se deve ao fato de muito trabalho (ele trabalha da 6h da manhã as 21horas). Isso também se deve à sorte e preparo profissional.
Os estilistas dos anos 80 suplantaram as marcas, entenderam o processo de gestão, de transferir o valor da marca para conglomerados, booms da moda como negócio.
A roupa mais bem feita para mim hoje é do casal Glória Coelho e Reinaldo Lourenço.

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