Uma viagem ao século XIX com sabor genuinamente potiguar
Publicado no Dia 03/08/2009
Allan Darlyson
Respirar o ar puro do campo, degustar as delícias da culinária regional e ainda fazer uma viagem ao início do século XIX com características genuinamente potiguares. Já imaginou isso tudo em um só lugar? Essas sensações podem ser apreciadas a pouco mais de uma hora de viagem da capital, na fazenda Bom Jardim, localizada no município de Goianinha.
Com estrutura rústica de um local tombado como patrimônio histórico-cultural do Estado, em 2007, a fazenda Bom Jardim, antigo engenho de açúcar, se transformou, há nove anos, em referência para o passeio turístico no campo. O lugar, de propriedade da dona Helena Carvalho Araújo Lima, 87 anos, conserva suas características originais desde o século XIX, quando os primeiros parentes de Helena chegaram ao Brasil.
Além de proporcionar aos visitantes todo o bem-estar da vida rural, o turista que se propõe a conhecer a moradia de dona Helena tem uma verdadeira aula prática de história do RN, conhecendo a estrutura peculiar de uma antiga fazenda de engenho norte-rio-grandense, que guarda, nos cantos da casa, recortes nossa cultura.
VisitaAo chegar à fazenda, o visitante é recebido por dona Helena, que com a ajuda de familiares leva os turistas para conhecer o peculiar jardim cultivado no local. Em seguida, a anfitriã apresenta cada canto da casa, contando a história dos móveis, objetos, cômodos e explicando os objetivos de seus antepassados [a família Araújo Lima, de origem portuguesa] ao construir, daquela forma, os espaços visitados.
Deglutido o conhecimento cultural que o patrimônio da família tem a oferecer, os apreciadores de uma boa aguardente são convidados a degustar o sabor da "Maria Boa", cachaça fabricada no local, e têm a oportunidade de conhecer também os animais que habitam a fazenda. Entre eles, um criadouro de Emas.
Depois, é hora de fazer um tour em uma trilha na mata atlântica de mucambo - que possui árvores catalogadas, além de ampla fauna e flora - existente dentro da propriedade. Terminada a trilha, os turistas degustam o sabor das frutas locais e são convidados para um passeio a cavalo, pelo extenso território da fazenda, que possui cerca de 700 hectares de extensão. O roteiro pode ser alterado conforme o desejo dos visitantes. O preço cobrado varia de acordo com os atrativos dos quais os clientes desejam desfrutar.
GastronomiaBem servidos de cultura e lazer, a passagem pelo campo termina com a refeição, que é inteiramente composta de quitutes regionais, como arroz de leite, galinha caipira, jerimum, entre muitas outras iguarias potiguares. Dependendo do horário da visita, o turista pode escolher se vai tomar o café da manhã, almoçar ou lanchar, na companhia dos Araújo Lima. O visitante também pode optar por uma programação que envolva mais de uma refeição.
PúblicoDesde que começou a receber visitas, em 2000, a fazenda Bom Jardim firmou convênio com vários receptivos de Turismo, que levam um grande número de visitantes ao local. Dona Helena já chegou a receber 10 mil turistas em um ano, em sua residência.
O público visitante que mais se encantava com as belezas do lugar era composto, em sua maioria, por estrangeiros, como Ingleses, italianos, escandinavos e, em menor número, alemães. Mas, com a baixa no recebimento de vôos charters, o público estrangeiro diminuiu bastante, de acordo com a filha de dona Helena, Catarina Araújo Lima.
"No início, tínhamos muitos estrangeiros na fazenda, mas, com a queda na receptividade de turistas internacionais, nosso público mudou um pouco, embora permaneça grande. Agora, recebemos muitos brasileiros. O interesse de pessoas que buscam conhecimento é crescente, principalmente de estudantes, em diversas áreas do conhecimento, como turismo e história, por exemplo", informou Catarina.
Início da atividadeA atividade turística da fazenda Bom Jardim foi iniciada sistematicamente por meio do convite de empresários de Receptivo da Pipa para atender aos turistas portugueses que começavam a chegar por vôos charters.
"A partir daí, visitantes de outras nacionalidades foram se incorporando, bem como grupos da Melhor Idade, estudantes de colégios e de cursos de faculdades. Eventualmente, são realizados, também, ensaios fotográficos, documentários, programas de TV e treinamento empresarial", relatou Catarina.
EconomiaDepois de quase dois séculos, a economia da fazenda continua voltada para produção de cana-de-açúcar. Com o objetivo de ampliar suas atividades produtivas, implantou um novo engenho de produção de cachaça, o Engenho Mucambo, do qual se originam as cachaças Maria Boa e Mucambo, já lançadas no mercado.
Mario de AndradeA presença de Mário de Andrade - um dos maiores escritores brasileiros - na propriedade dos Araújo Lima, em 1928, está sempre gerando visitas de universidades, entidades culturais e estudiosos, devido à importância histórica e o legado que ele deixou ao Estado.
Mário se hospedou no local quando fazia pesquisava a cultura popular pelo Nordeste. Na ocasião, Mário de Andrade descobriu Chico Antônio, cantador de cocos, hoje com sua obra reconhecida em todo o Brasil.

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