Um surto como o RN nunca viu
Publicada na Edição Número 0612 - Ano II
Allan DarlysonAlberto Leandro

Enfermarias ficam lotadas com crianças, mais susceptíveis à pegar a doença
O ano de 2008 é marcado por um dos maiores surtos de dengue que o Rio Grande do Norte já viveu, se não o maior, bem diferente do mesmo período de 2007, quando a doença preocupava, mas não atingia números tão alarmantes. A última epidemia grave ocorreu em 2002, quando o Estado atingiu 11.547 casos da doença no primeiro trimestre do ano, sem registro de mortes, no entanto. Nesse ano, o total de pacientes com dengue já é de 16.179, número que já supera, em apenas quatro meses, os índices dos anos de 2004, 2005, 2006 e 2007. Nesse trimestre, o estado também chegou a registrar 20 suspeitas de mortes causadas pela doença e duas confirmadas, o que faz especialistas e gestores públicos afirmarem que a situação atual é a mais grave que o Estado viu, sem falar na subnotificação, casos que nem chegam a entrar nos levantamentos feitos pelo poder público.
Os casos da doença afetam, na maioria das vezes, crianças de 0 a 16 anos, o que provoca lotação nos hospitais infantis. Com o surto de dengue no Rio Grande do Norte, o Hospital Maria Alice Fernandes (HMAF) lotou as enfermarias disponíveis e encaminha os pacientes para outras unidades de saúde. Isso acontece devido à falta de profissionais para atender grande demanda de crianças infectadas pela dengue.
Segundo a enfermeira responsável pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HMAF (CCIH), Rozimeire Jácome, a situação é preocupante. Ela conta que o número de casos de dengue registrados no hospital cresce a cada mês. Em janeiro foram 55 casos, em fevereiro esse número subiu para 161 e, em março, o hospital contabilizou mais de 200 ocorrências, com 11 na fase hemorrágica.
No Hospital Infantil Varela Santiago foram registrados, ao todo, 117 casos de dengue no ano passado, sem óbitos. Em apenas três meses de 2008, a mesma unidade atendeu 145 casos da doença, sendo desses 101 diagnosticados com a fase hemorrágica e duas mortes. As duas crianças que morreram eram do sexo masculino, uma de 2 anos e a outra de seis meses, que, segundo informações, morreu mamando e sangrando, nos braços de sua mãe.
O drama da confirmação
Os números só não chocam mais do que as histórias de família inteiras, que vivem o drama de terem suas crianças infectadas pela doença, muitas vezes correndo risco de morte. É o caso da dona de casa Gerdilene Gomes, 32 anos, que estava como acompanhante do seu sobrinho Hebert Mauro, 3 anos, porque a mãe da criança também estava com dengue e se tratava em outro hospital.
Hebert é do município de Frutuoso Gomes, região Alto Oeste, e com pouco tempo de vida já teve que enfrentar a UTI do hospital por estar com dengue hemorrágica. A criança sangrava muito, mas depois do tratamento, conseguiu sair do estado grave, sorte que não tiveram outros dois meninos, que morreram no hospital no mesmo período.
Outro episódio é o da professora Sandra Daniele, 26 anos, da cidade de Currais Novos, que cuidava do seu filho João Emanoel, com apenas oito meses de vida. João estava com dengue hemorrágica e foi internado no Hospital Infantil em estado grave, chegando a sangrar pela boca e pelo umbigo.
As principais medidas para evitar a proliferação do mosquito são:
- Evitar água parada
- Esvaziar e escovar as paredes internas de recipientes que acumulam água.
- Manter totalmente fechadas cisternas, caixas d'água e reservatórios provisórios.
- Guardar latas e garrafas emborcadas para não reter água.
- Limpar periodicamente calhas de telhados.
- Jogar quinzenalmente desinfetante nos ralos externos e internos das edificações
- Drenar terrenos onde ocorra formação de poças.
- Não despejar lixo em valas, valetas, margens de córregos e riachos.
Especialista confirma gravidade da situaçãoEm entrevista concedida ao CORREIO DA TARDE, em abril passado, o infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Luís Alberto Marinho, classificou a epidemia de dengue atual como a maior dos últimos anos, devido ao número alarmante de pessoas com a fase mais grave da doença. Segundo o especialista, isso acontece pela falta de comprometimento do poder público com o combate à doença desde 1996.
"O aumento nos casos de dengue, do ano passado pra cá, é extraordinário. Porém, acontece normalmente essa variação de um ano para o outro, com várias enfermidades, mas o que impressiona mesmo é a gravidade com que os infectados se encontram, sendo confirmados vários óbitos", analisou.
O especialista considera o trabalho realizado pelos gestores como uma ação de péssima qualidade. "Desde 96 que o trabalho é falho, tímido e ineficiente. Os agentes de saúde são mal pagos, não têm condições de trabalho e são sobrecarregados, mesmo tendo o trabalho mais importante no combate a dengue". O professor ainda questiona: "Se o agente de saúde é a principal forma de combater a doença e a prefeitura diz que não vai medir esforços para combatê-la, então porque não valoriza o profissional?".
A expectativa de Luiz Alberto para os próximos anos é péssima. Ele alerta que com o descaso como o poder público trata a doença, a dengue tem tendência a se espalhar e atingir índices ainda mais assustadores. "Os governantes do Brasil já chegaram ao cúmulo de brincar com o problema. A falta de compromisso é visível. O prefeito do Rio de janeiro chegou a declarar que para acabar com a dengue no país, o brasileiro teria que começar a usar casaco e luvas e mudar o clima para zona temperada", alfinetou.
Fase hemorrágica avança cada vez maisDesde 1996, quando a dengue chegou ao estado, o índice da fase hemorrágica da doença era de no máximo 3% dos casos, variando abaixo desse valor entre os anos. Em 2008, os números chegam a aproximadamente 10%, o que representa um crescimento de 7% na gravidade de incidência da doença.
A situação é considerada preocupante por especialistas e gestores públicos. Já foram registrados 3.020 casos de dengue clássica, 295 com a fase hemorrágica e quatro mortes provocadas pela epidemia, só em Natal. Segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), 3,4 % das residências da capital do estado possuem focos do Aedis aegypt, o mosquito da dengue.
O coordenador municipal do Programa de Saúde da Família (PSF) e controle da dengue, Alexandre Medeiros, considera que o surto que o estado vive deve-se à alta infestação do mosquito e à falta de consciência da população, que joga o lixo na rua, gerando novos criadouros para o causador da doença. "O trabalho de combate a dengue tem que ser feito em parceria do poder público com a população. Temos que conscientizar as pessoas para que eliminem os focos nas suas casas e colaborem também na limpeza das ruas, não jogando lixo", apela o representante do poder público.

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