Edição Número 0747 - Ano II - Natal e Mossoró, Sábado, 11 de Outubro de 2008.

A República da Resistência

Publicada na Edição Número 0612 - Ano II
Fábio Farias

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Lenílton Lima, fotógrafo: "Ainda estamos nos adaptando ao novo espaço"
Em setembro de 2007, o CORREIO DA TARDE noticiou em seu caderno de cultura o "despejo" dos artistas que viviam e produziam no prédio batizado como República das Artes, na Av. Rio Branco, no centro de Natal. O problema, na época, era que o imóvel pertencia à UFRN e há tempos estava abandonada. Por conta disso, o Conselho de Administração da Universidade decidiu ceder o imóvel para o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet/RN) que queria usá-lo para construir salas de aulas. Os artistas, que não tinham para aonde ir, decidiram não desocupar o prédio e o impasse se estabeleceu.

Foram quase cinco meses de debates entre artistas, Cefet e poder judiciário. A movimentação incluiu, ainda, um abaixo-assinado com mais de quatro mil assinaturas em favor dos artistas, propostas de parcerias e intervenções de órgãos como a OAB. Em janeiro deste ano, o CORREIO DA TARDE publicou outra matéria, enfocando a falta de incentivo e cuidado com a classe artística da cidade e a perda que seria para ela o despejo do prédio. A matéria mostrava que, para o Cefet, quem deveria alojar os artistas eram as fundações públicas dedicadas a isso, como a Fundação José Augusto ou Capitania das Artes, retratando o jogo de empurra que decorreu do impasse da desocupação do prédio.

No início de fevereiro, a justiça determinou que os artistas desocupassem o prédio em apenas dez dias. O CORREIO DA TARDE novamente noticiou o assunto e destacou que a Fundação República das Artes instalada ali beneficiava ao todo cerca de 560 famílias, abrigava 26 grupos de teatro e 230 artistas.

Mas, apesar de drástica, a medida acelerou um acordo entre as duas partes. No final de fevereiro, numa audiência realizada no Ministério Público Federal, envolvendo o Cefet, os artistas, a UFRN e a Fundação José Augusto, foi feito um acordo para dar aos artistas um novo endereço no bairro do Alecrim, num prédio cedido pela empreiteira que faria as obras no casarão da Rio Branco. Segundo a decisão, os artistas ficariam até dois anos lá. Depois disso, iriam para o antigo almoxarifado da empresa Refersa, que passaria por uma reforma e restauração custeadas pela Fundação José Augusto.

Segundo a assessoria de imprensa do Cefet, logo após a desocupação do prédio a empreiteira começou as reformas no local. "Esperamos concluir grande parte da obra no aniversário do Cefet, em setembro deste ano" informou Tânia Carvalho, coordenadora de comunicação. Ela disse que as obras estão passando por algumas dificuldades porque parte do prédio é tombado e, para que a restauração seja feita, é necessária uma autorização da Fundação José Augusto. "Assim que nos derem essa autorização, iremos restaurar a parte tombada que irá servir como local para exposições". O Cefet pretende usar o prédio também para aulas de artes. "Vamos abrigar salas de aula para ensinar artes de forma gratuita" informou.

Como estão os artistas hoje

Salas pequenas, madeirites e um amor incondicional pela arte. É assim que vivem os artistas no prédio provisório no qual estão alojados depois de perderem para o Cefet a República das Artes.
Dos 26 grupos, restaram 13 e das mais de 200 pessoas que produziam apenas 100 ficaram lá. "Os grupos maiores alugaram locais para realizarem ensaios e para as suas atividades, alguns menores saíram pela falta de espaço do prédio", conta o fotógrafo Lenílton Lima que trabalha no local.

"Estamos em adaptação aqui", desabafou Lenilton que ressaltou ainda o amor dos artistas pelo prédio da Rio Branco. "Quando chegamos lá, era um refúgio de consumidores de drogas. Tivemos até alguns problemas com os moradores da região. Fizemos todo o tipo de trabalho no prédio: mechemos na parte elétrica, pintamos as paredes. Todos que viviam ali nutrem um amor especial pelo local, tanto é que a nossa logomarca continua sendo o prédio", lembra.

O Cefet alegava que o prédio da Rio Branco estava prestes a cair. Mas os artistas negam. "O prédio tinha condições de uso, porque nós demos condições a ele. O único local que realmente dava problemas era a parte tombada, mas ninguém ficava por lá", ressaltou Lenílton. Ele cita que a improvisação é um dos maiores problemas que eles têm no prédio atual. "Na Rio Branco também não era organizado, mas pelo menos tínhamos mais espaço e uma relação forte com o edifício", alega.

Apesar de pequeno, os artistas da República das Artes têm projetos e produzem incessantemente em sua nova casa. "O pessoal do teatro ensaia todo dia, temos uma lojinha de artesanato ali em baixo e ainda tem o núcleo Potiguaçu que faz um trabalho de incentivo a cultura indígena", lista Lenílton.

Desde a mudança, há três meses, ele conta que não ficaram parados: já foram encenadas peças pela cidade e abertas exposições com material produzido lá. Mas o primeiro projeto em conjunto foi no último sábado (26/04), quando eles fizeram intervenções poéticas e venderam artesanatos na feira do Alecrim, numa iniciativa para alcançar a comunidade que agora é vizinha da nova e provisória República das Artes. Além disso, os artistas pretendem realizar oficinas. "As oficinas serão feitas com o objetivo de formar público e novos artistas. Nós pretendemos que sejam de graça, mas se não conseguirmos apoio institucional, terá que ser pago", antecipa Genildo Mateus, dramaturgo e artista plástico.

Dentre as pessoas que não tiveram como ficar no prédio, está Kátia Dantas, do bloco carnavalesco Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens. "O prédio não oferece condições para eu desenvolver o meu trabalho, o espaço é pequeno, divido em salas. Por conta disso meu material está todo numa casa lá em parnamirim e eu estou com dificuldades de desenvolver meu trabalho", lamenta. Além disso, ela cita o medo de caso a Fundação José Augusto não reformar o almoxarifado da Refersa antes do prazo de dois anos. "O aluguel do prédio provisório é pago pela empreiteira só por dois anos. Se a FJA não terminar a reforma dentro desse tempo, os artistas serão despejados de novo?", questiona.

Cultura em Natal

Os artistas também reclamam da falta de incentivo e apoio à cultura em Natal. "É muito difícil captar recursos. Não existe uma política para incentivar os empresários a aceitar projetos de artistas pequenos, geralmente eles só patrocinam os grandes", lamenta Genildo. Ele lembra que as leis de incentivo a cultura deveriam servir de estímulo para os empresários, porque beneficia bastante a classe. "As leis de incentivo beneficiam o empresário em dobro: primeiro ele tem parte do seu imposto deduzido e segundo porque agregam a logomarca para atividades culturais" disse Genildo.

Fora isso existe a população. Os artistas citam que a cidade ainda vive num processo provinciano. "Em pleno 2008, em Natal o artista é despejado, tratado como vagabundo e ainda contamos com uma falta de uma política voltada para a cultura e para a formação cultural em Natal. Falta respeito ao artista potiguar", desabafa Genildo Mateus. "O artista pede dinheiro para o governo municipal, que pede pro estadual, que pede pro federal, que pede pros banqueiros e quando chega ao artistas, só vem uns trocados", completa ironicamente.

Eles citam a necessidade que a sociedade natalense tem de projetos para formação de público. "Se temos peça o tempo todo, sem parar, um dia aquela pessoa que não vai ao teatro vai querer saber o que é aquilo. Resultado: gosta e teremos mais público", argumenta Genildo. Ele e Lenílton criticam também o projeto que as escolas tem de levar as crianças para o teatro. "Não existe um preparo para a criança antes de ir para o teatro. Eles não estudam aquilo e muitas vezes os professores acabam impondo a ida deles ao teatro. Acontece que isso gera situações ruins dentro do teatro. Os alunos não sabem como se portar e não se formam como platéia", lamenta Genildo.

E agora José? "Ano passado, em tudo que era cultura em Natal a República das Artes estava envolvida. Tivemos artistas premiados municipalmente, estadualmente e até nacionalmente", registra Lenílton Lima.

Os artistas esperam agora apoios para realizarem seus projetos e a tão esperada reforma do almoxarifado da Refersa para, enfim, terem um local definitivo e adequado para produzirem e incentivar a cultura em Natal.






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